filha de uma puta virgem sob a mira de uma crista-de-galo em eclosão

não entendeu nada quando viu a pequena entrar pelo portão principal daquele jeito como fazia tanto não a via, toda borrada de vermelho, pichada de vermelho e toda picada, carcomida pelas beiradas, miolo cuspido tão fora da órbita dos olhos mastigados em nome da santa fé nuns cacarecos a mais, talvez, talvez já gastos traqueia abaixo ou da fé já em porra nenhuma, que ao cruzar a nave desguedelhada tropicou três vezes até cair num tombo seco rodopiando em sua batina de encontro aos pés do cristo ainda menino jazido sobre o altar. ela que, ainda menina, havia se reconhecido em pormenores de todas as leituras feitas das fotos nas manchetes dos jornais amontoados sobre a falta de querência de uma manhã anterior, que falava com os anjos em línguas sem saber serem dela ou deles próprios ou de um torpor condicionado ao pânico de continuar hablando en tu lengua, mi corazón, mas paga adiantado senão não rola nem a labirintite da cheirada no teu cangote em vê, que não se reconhecia em frases feitas do passado mas que logo se abrandou na acidez de um peagá máximo e absoluto daquele que foi o cálice em que todos cuspiram seus colostros e, finalmente, antes que o nunca lhe parecesse tarde demais, chegou a ser num entardecer mormacento a redenção, palavra besta, de seus roteiros inadequados. ela. deus me perdoe. filha de uma puta virgem. não era amor o que sentia? o que fazia, então, ali estirada se afrouxando em risos que lhe escorriam babugem boca abaixo pra entre soluços ser sorvido o susto do abismo e, salvaguardando lapsos de uma memória em sua quase totalidade perdida, apalpar ora a palha seca da manjedoura ora a secura inerte de uma dor personificada no trato morno da homilia prosseguida aos trancos quando dele somente esperavam a postura condigna de um sacerdote perante dias a fio de novenas natalinas entoando cânticos de louvor às siriricas não batidas por uma multidão de fiéis em colapso consensual iminente. em plena missa do galo, louvado seja, um despautério. que insistia em pender-se ao sacrário. não era amor o que sentia, o que vinha procurar? ela. filha de uma puta virgem. que de tanto se embebedar com o sangue sobrado das missas do bom pastor e solavancar seus pecados em nome de um tal diabo confirmado na graça de paixões baratas e sem pudores de destroçar pescoços e outros dúcteis fracionados, tantas vírgulas se roçando, pós-passada a um sem número de abrigos e proveniências desde o primeiro dos pentelhos insurgidos na face, fez-se gloriosa e concebida sem entraves pra proclamar as verdades e espúrias de um espírito inquieto e santo e procrastinado em seu viver. filha de uma puta virgem. ela, que se quis parecer tanto com a mãe. deusmeperdoe-lhe, a todos. não pôde deixar de interferir designando versículos não lidos, omissões e um certo quê de recalque, desparafusando-se e ressuscitando ao terceiro copo de vinho nos rumos estabelecidos pelo divã improvisado aos pés um tanto deslocados da cruz, o mesmo em que então se esmorecia a pequena pra depois se reanimar em ditongos decrescentes e romper novamente em espasmos de uma confissão à moda antiga ao sabor intragável que despelava o céu da boca e as vias aéreas e os alvéolos do padreco chacoalhado pela beata que àquela altura já havia reprimido um purgatório de orgasmos (não se converteu por pouco ao chegar em casa e se dar conta da gota ainda úmida impressa na calçola) enquanto ele nada fazia. filha de uma puta virgem. não era amor o que sentia, o que vinha procurar, o que me prometia aos pés da cama? quis puxar a mãe, sem vergonha, fodeu com as profecias. montada nos joelhos da imagem, a originalidade parca de um enfant terriblé, foi cobrar o cabaço que nunca lhe pertencera por direito algum que jamais tivera senão pela pensão ora reivindicada em proveito próprio ou de uma admoestação terceira, talvez a da menina que teimava em crescer. o último gole. saliva a seco. virgem sim, ô caralho, e só atesto a paternidade depois que me comer sem batina.

(conto publicado em dois mil e cinco, na cronópios. escrito em dezembro do mesmo ano, em dois dias regados a baikal. [semi]revisado.)

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About caco ishak

deu pau no servidor da verbeat
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