welcome to usa, mr. fora temer

welcome_to_USA_mr_fora_temer.pdf

O neo-ditador golpista Michel Temer e seu moleque de recados internacionais José Serra estão em Nova York. Nesta manhã, 20/9, Temer discursou durante a abertura da 71a Assembleia Geral da ONU. Pairava sobre o já corriqueiro incômodo estampado na testa não apenas o espírito do velho comunista Oscar Niemeyer nos ares da Sede da ONU, como também lhe acompanhando desde Brasília aonde quer que vá as já corriqueiras vaias entre coros de “Fora Temer”. Dois agravantes dessa vez: se os espelhos d’água no Distrito Federal não ensejam o confronto entre Temer sempre altivo e seu próprio reflexo, o prédio espelhado na 10017, leste de Manhattan, não deu tréguas ao narciso vergonhosamente nu diante de seus desobedientes civis.

Entre os manifestantes aos portões das Nações Unidas, em meio a cartazes e gritos de desordem contra o atual retrocesso no Brasil, circulava um manual de boas vindas voltado aos gringos que porventura quisessem aderir tão calorosa recepção, o zine “Welcome to USA, Mr. Fora Temer”.

welcome_to_USA_mr_fora_temer.pdf“O motivo da participação brasileira é histórico. Como o Brasil, em 1945, foi o primeiro país a virar membro da ONU, ganhou um papel muito especial no encontro. Até hoje o país discursa na abertura, que reúne mais de 190 chefes de Estado”, ressalta a organização do zine cujos membros por razões óbvias preferiram manter o anonimato. “Lembrando que Dilma foi a primeira mulher a exercer esse papel”.

Como forma de protesto, um coletivo de artistas produziu o zine impresso da forma mais simples e barata ainda hoje em pleno século XXI: com o auxílio de uma boa e velha fotocopiadora, mãe do jornalismo DIY (“do-it-yourself”) pós-mimeógrafo. Como não obstante se trata do século XXI, a versão digital também foi disponibilizada na rede.

GOLPE: ANTOLOGIA-MANIFESTO – De autoria coletiva, o zine reúne memes celebrados na história recente da internet tupiniquim, parte da repercussão internacional, as carimbadas de Cildo Meirelles versão STOP THE COUP distribuídas em notas de dG0LPE_Rodrigo_Sommerólares durante as manifestações do grupo Defend Democracy in Brazil já realizadas em Nova York. Embora a mensagem logo abaixo das charges de dois grandes artistas contemporâneos, Laerte e André Dahmer, não deixe margem a dúvidas: a tradução correta para o que vivemos hoje no Brasil seria “putsch” (um golpe muito bem articulado por meses, anos) e não “coup” (um golpe repentino, inesperado). As charges foram originalmente publicadas em português na Antologia-Manifesto GOLPE, outro projeto artístico-literário que reúne 120 nomes contra a Ditadura Temer, lançado ainda em junho de 2016 e de igual modo disponível online.

“É um momento-chave: o Brasil é um protagonista internacional no dia de hoje, o que vemos é uma tentativa do governo Temer de se passar por legítimo. Protestar é fundamental pra deixar claro o desacordo da população. Que o Temer seja vaiado por onde for. Como nas Olimpíadas. Como nas Paraolimpíadas. Que um imenso #bootemer possa ressoar por aí”, conclama a organização do zine.

Texto e vídeo originalmente publicados nos Jornalistas Livres.

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Camarada Don’Otoni,

Já não sei mais o que fazer com nossa esquerda. A gente fala, fala, não é de hoje, mas quem quer parar de falar um pouco pra escutar? Lembra do que a Ana C. disse pra M. Cecília Fonseca? “Teve época que eu piamente acreditei que bastava ter opiniões de esquerda pra ser de esquerda. A ideologia vinha primeiro. É a política alucinatória”. Em março minha TL estava num surto coletivo, dividida entre 1937 e 1964. Ninguém parecia se dar conta de que não, estamos em 2016. Economia? Desonestidade intelectual é hoje nossa pior crise: assolando (dicunforça) o país desde junho de 2013. O que me faz lembrar do que o Mailer disse, que se “esses movimentos vão conseguir algum efeito político imediato (…) pode ser um efeito negativo”. No caso, acabou dando na eleição do Bush. OK, ele disse isso no século passado. Pelo visto ainda vale. Com certeza valeu em 2013. Espero que deixe de valer o quanto antes. Fato é: após o golpe constitucionalista não tivemos outra opção. O que não quer dizer que não possa piorar. Sabe, eu sei o que esperar da Globo. Eu sei o que esperar dos políticos. O que esperar do judiciário, da PM. Venho aprendendo o que esperar da esquerda com o passar dos anos, tendo sempre em mente: todo ser humano é um monstro em potencial. Vê bem, não se trata de picuinha com A ou B, esquerda caviar ou esquerda avatar, nem é hora de picuinha. Só acho que outras questões tão fundamentais pra além do iMediatismo das hashtags acabam ficando de lado. Fazer-se compreender a sutil diferença entre “coup” e “putsch” por exemplo. Pra talvez conseguir entender de vez no que aquela tormenta polarizada pré-Temer deu: tanto direita quanto esquerda foram responsáveis pelo golpe. Judas deu seu beijo. Enforcou-se de tanto remorso na cadeia. Até quando vamos pensar que a direita é burra? Não é. Há quem confunda política com intelligenza. Há quem não tenha entendido nada sobre o Bessias, jogada estratégica de gênio. Não à toa, os cem anos de reclusão. Questão da mais pura lógica analítica. Dilma sabia estar sendo gravada. Não se trata de apelar pro método hipotético-dedutivo, ao contrário: maior oportunidade pro direito enfim largar mão de vez do positivismo. Onde já se viu, ordem? Importa, quando muito, o progresso. A questão primordial no entanto é: frente a esse Frankenstein sfeziano, “como recuperar a humildade sem cair na inferioridade? E como recuperar as pessoas que eu pisei nessa cavalgada das valquírias?” Como reverter essa onda reaça a tempo das eleições em outubro? Porque sim, temos “eleições” em outubro e outubro é logo ali. Nem quero pensar no desfecho desse desfile da Independência depois das não-Olimpíadas nesse Vermelho Agosto que mal começou. Até quando vamos rir dos Bolsonaro como rimos do Trump? O meme acordou. Já não nos bastava o gigante nessa terra sem João nem pé de feijão? Lembro da vez em que a gente viu aquele filme, “Contos da era de ouro”, sobre o regime do Ceausescu na Romênia, no quanto tu te empolgou com o que chamou de esquerda brinquedão. Talvez esteja na hora, Otoni, de assumirmos cada qual seu brinquedo chapéu mexicano. Atearmos fogo na aldeia espanhola do Tio Nelson e nos embrenharmos pelo que ainda sobra de floresta América Latina adentro sem pedir licença pra malária nem milico.

E que venham, porque hão de vir, os loucos anos 20.

Atento y fuerte. Foco e risco. Porro y suerte.

Nos vemos em breve,

G. Ishak

PS: O casamento segue nos vagões da clandestinidade, mas em bons trilhos. Beijos na Ninoca.

 

[originamente publicado na antologia-manifesto GOLPE em junho de 2016]

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by pedro lucena

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cowboy no homo literatus

Chegar aos 30 sem a mínima ideia do que fazer com toda uma vida pela frente. Largar a faculdade de Direito e virar artista plástico. Planejar uma viagem de carro pelo continente americano com os amigos. Amar, separar, cuidar de uma filha. Colocar o chapéu e enfrentar os desafios como um cowboy inebriado e destemido. Fatos e escolhas presentes em Eu, Cowboy, primeiro romance do escritor, jornalista, tradutor e roteirista Caco Ishak.

Essas e outras façanhas, como beber vodca como se fosse água, arranjar brigas e se jogar de um carro em movimento, são obra de Carlo Kaddish, alter ego do autor. É o personagem que narra a história e nos leva a um labirinto de questionamentos e sentimentos intensos sobre toda uma geração que se sente perdida, não sabe por que lutar e sofre por achar que tudo o que era possível criar nesse mundo já foi criado.

Frank Neres resenhou Eu, Cowboy – alegre surpresa, mais de ano após a publicação – no Homo Literatus. o autor agradece de público. pra ler o resto, só clicar aqui.

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memórias do cárcere na ditadura temer

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Sérgio Andrade e Deborah Fabri perderam um olho. Fernando Fernandes perdeu um dente. Tive a sorte de não perder mais do que minha câmera. Cobria o quarto ato “Fora Temer” em São Paulo, pelos Jornalistas Livres, desde a concentração em frente ao MASP. Força policial maciça, a postos em cada esquina das transversais de lado a lado e em frente ao museu, helicóptero no ar. Força policial não apenas desproporcional ao número de manifestantes (sou de humanas, basta dizer que estes ocupavam quase toda a extensão do quarteirão) como completamente desorganizada. Ou propositalmente. Manifestantes eram orientados a seguir por determinado caminho e se deparavam com uma barreira policial pronta pra atacar. O jornalista foi se informar. “Não recebemos ordem nenhuma”. Entrou em cena o advogado.

Com OAB recém-reativada, por há muito já temer o pior, tentava intervir sempre que a chapa esquentava, questionando majores, tenentes, soldados, os próprios manifestantes (em sua maioria jovens e adolescentes). Assim acompanhei o ato até a 9 de Julho: ora imprensa, ora direitos humanos. Encontrava-me entre o batalhão e o povo no momento em que um dos manifestantes soltou um rojão pro alto e de imediato a PM respondeu como de hábito descomedida com balas de borracha e bombas de gás.

O que se seguiu daí em diante, há de ficar guardado na memória. Após a esperada dispersão, com o celular descarregado e perto de casa, resolvi fazer um pit stop pra recarregar a(s) bateria(s) e dar notícias à base (modo avião desde o Aeroporto Internacional de Brasília, onde cobria a consumação do golpe, incomunicável desde horas antes). Não durou cinco minutos. O tempo de olhar pela janela e dar de cara com cerca de cinquenta homens da Tropa de Choque atravessando a Roosevelt.

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meu filholini

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chegou o dia. muito me deu prazer ter escrito o prefácio desse somos mais limpos pela manhã, não só por ser meu primeiro como sobretudo por ser o primeiro do jorge filholini.

segue um trecho:

A consciência já tão bem formada de um autor estreante quanto à transitoriedade das vidas mimetizadas na obra, portanto, da obra em si. “Narra direito ou abandono o texto”, diz o personagem de Mataram o narrador, cutucando os frangos de caçarola da literatura nacional: “escrever à mão ninguém mais quer. Dói o punho. Tadinhos”. Logo, do próprio autor.

Quem seria o Senhor H? Quem seria esse poeta “sempre solicitado nos saraus pra recitar aquele verso do Paulo Paes ou do Bandeira” e que hoje já não consegue lembrar a senha da própria conta bancária? Seria o H de Herói da literatura nacional? Ou heróis nada salvam senão os próprios umbigos? O país se salva. E… lá vem o Brasil descendo a ladeira.

E com o Brasil, todos os heróis de verdade, os heróis da rua, os mesmos retratados pelo Jorge Filholini na literatura ou na fotografia ou numa conversa-fiada de bar. As chagas de um herói comum, ainda que já não sambe feito o pai, enlatado num sonho classe-média com garagem, previsível e cotidiano, My way na vitrola. “A casa sempre sabe o próximo passo de seu dono”. As chagas de Antônio Carlos cortando “sua pizza como um príncipe”, um covarde. Ainda assim: his way.

que livro foda esse sacana escreveu. alegria mesmo (não invoco a palavra em vão) de fazer parte assim tão intimamente desse momento.

hoje portanto até compartilho a guarda com quem quer quer apareça (e espero que apareçam muitos, todos) mas: o filholini é meu.

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macacada fashion

IMG_20160730_0001-page-001aí saio revirando as caixas em Belém e me deparo com isso.

Macacada Fashion: zine editado por mim (e Orlando Arouck, quem idealizou a bagaça, até a terceira ou quarta edição), com ilustrações de Márcio Guerra. doze edições no total, se bem me lembro. terminou seus dias como tão somente: Macacada.

me perdoem pelas crases e vírgulas e “editoração” e referências (minhoca do Labirinto?!) e tudo mais. eu era só um moleque de dezoito anos a contragosto numa faculdade de direito dando meus primeiros passos autodidatas no jornalismo.

os grifos são do pai. palavras fora do contexto, incabíveis, segundo ele. um amigo me acusava na época de ser verborrágico, pedante. a tirar pelo “Guimarães Ishak” e pela moral da história (em contraste com os erros supracitados), talvez ele tivesse razão.

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ficcionais vol.2

CAPA_Ficcionais_vol2-1alegria de participar dessa FICCIONAIS VOL.2 organizada por Schneider Carpeggiani com meu ensaio até onde a obra pode levar o escritor. hoje, a partir das 19h30, na livraria blooks (shopping frei caneca), tem o lançamento + mesa com Julián Fuks, Micheliny Verunschk e Sidney Rocha, mediados pelo próprio Schneider. todos bem vindos.

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