Corpo e Filosofia: Sobre comentário em “manual do curioso”

Corpo e Filosofia – Parte I

Na história da filosofia tradicionalmente pensa-se ‘corpo’ como o corpo humano, porém, no princípio da filosofia, esta ocupava-se da investigação da natureza, investigação sobre os corpos, sendo corpo aqui não apenas referente ao corpo humano.
Na antigüidade houve uma virada cognitiva, mudando de filosofia da natureza para uma teoria a respeito do homem, sendo o marco dessa virada subjetiva Sócrates e a máxima “Conhece-te a ti mesmo”. Essa máxima socrática se dirige mais às potências da alma do que às do corpo.
Corpo X alma. – Corpo como um obstáculo (Fédon). X Importância dos prazeres para elevar a alma à contemplação do belo, atuando aqui o corpo como meio para se chegar a um fim mais elevado (O Banquete).
Figura de Sócrates, curiosa: ascetismo em relação ao corpo X figura que tem um domínio sobre os prazeres corporais.
A tradição cristã se apoiou no discurso de Sócrates no Fédon para construir interdições morais acerca do corpo.
Malebranche: deve-se fazer o máximo para se esquecer que se tem um corpo.
Descartes: busca de dar ao corpo uma mesma dignidade ontológica que a da mente através dos conceitos de substância pensante e substância extensa. Corpo menos conhecido que a mente, sendo a última mais imediatamente conhecida pelo próprio sujeito: espécie de inversão em relação à nossa experiência cotidiana em relação ao nosso corpo.
Música: “Elegia”, Caetano Veloso.

Corpo e Filosofia – Parte II

Final do Fédon (sacrifício de um galo a Asclépio): outra interpretação de alguns especialistas de Platão, como se esse final representasse Platão se colocando dentro do diálogo, já que o filósofo estaria enfermo. Os defensores dessa leitura consideram que não há uma condenação tão forte do corpo em Sócrates quanto se tentou fazer parecer a partir de uma leitura que só leva em conta o Fédon desconsiderando os outros diálogos platônicos.Essa interpretação vai contra a tradição legada de um Platão e Sócrates detratores do corpo, e é nisso que Nietzsche insiste muito na Gaia Ciência que lê nesse trecho final o posicionamento socrático colocando como se morrer fosse curar-se da doença.
Dentre os filósofos que defenderam o corpo temos Spinoza, que defende a importância de um cultivo do corpo. Segundo o filósofo corpo e mente são um só indivíduo concebido ora segundo um atributo, ora segundo outro (extensão / pensamento). A mente é idéia do corpo e em função disso, se o indivíduo não cultiva todas as potencialidades do seu corpo ele não vai cultivar todas as potencialidades de sua mente.
Spinoza: diz que o escárnio é uma coisa ruim, mas não se deve confundir o escárnio com o riso, riso é sempre bom porque é uma manifestação da alegria: alegrar-se equivale à satisfação de uma necessidade fisiológica.
Leitura do escólio da proposição 45 de Spinoza.

Música: “Tatu Marambá”, Tom Zé.

Corpo e Filosofia – Parte III

Pergunta: Spinoza teria formulado a questão sobre o que pode um corpo, questão essa retomada posteriormente por Deleuze.
Spinoza: ninguém até o presente determinou o que pode o corpo só pela natureza corporal. O filósofo vai dizer isso quando ele quer dizer que não há causalidade real entre corpo e mente, ou seja, não é a mente que determina o corpo a agir e nem o contrário. Deleuze retoma isso através de uma aproximação com Nietzsche e também se valendo de uma noção criada por Artaud que é a de “corpo sem órgãos”.
Deleuze vai entender essa pergunta de Spinoza como um convite à experimentação: já que ninguém sabe o que pode o corpo é necessário fazer uma experimentação acerca das potências do corpo.
Corpo como um modelo (nesse sentido vê-se a aproximação com Nietzsche) e ninguém sabe o que pode o corpo, do mesmo modo ninguém sabe o que pode a mente.

– Conceito de corpo sem órgãos:
“Como Criar para Si um Corpo sem Órgãos” é um dos Mil Platôs de Gilles Deleuze e Guattari. Os filósofos vão entender a substância como a possibilidade de unir todos os corpos sem órgãos, ou seja, todas as experimentações individuais, cada corpo sem órgãos é como um modo. Como uma transposição dos conceitos que Spinoza cria na ética com os conceitos que eles estão criando no Mil Platôs.
Corpo sem órgãos não significa o corpo esvaziado de seus órgãos. Um corpo sem órgãos se faz não contra os órgãos mas contra a organização dos órgãos sob a forma de um organismo (um corpo em que cada parte tem a sua função assinalada.).
A idéia chave do conceito de corpo sem órgãos é que os órgãos vão ser destituídos de suas funções orgânicas nos processos de desejo. Por exemplo, a sexualidade humana que não se limita à reprodução. E não se limita à sexualidade, pode-se pensar a alimentação, o atletismo que busca uma ultrapassagem dos limites orgânicos, a arte, dentre outros.

Música: “Angústia”, Secos e Molhados.

Corpo e Filosofia – Parte IV

Pergunta: referência ao escólio 45, necessidades do corpo X excessos.
Não se trata só de satisfação das necessidades, a não ser que se considere necessidades em um sentido bem amplo. Trata-se de um cultivo do corpo e de uma busca de proporcionar prazeres corporais a si mesmo, porque isso desenvolve as aptidões do corpo, mas há uma dosagem em relação ao uso desses prazeres.
Deleuze lê Spinoza a partir de uma idéia de experimentação; ele lê a frase “Ninguém até o presente determinou o que pode um corpo” como um convite à experimentação das potências do corpo. Mas essa experimentação não deve ultrapassar os limites, pois quando isso ocorre aquilo que era um aumento de potência começa a virar uma diminuição das potências. O limite é dado primeiro por essa idéia de que a coisa deve ser agradável e permanecer agradável (não levar à dor) e, além disso, você não deve estimular uma só parte (ou potência) do seu corpo.
Deleuze também vai trabalhar com essa idéia de limite que se coloca de um modo muito radical porque a experimentação da qual ele fala (conceito de corpo sem órgãos) envolve uma destituição das funções biológicas dos órgãos. Se os órgãos forem completamente destituídos das suas funções biológicas o indivíduo vai criar para si um corpo morto. O limite último da experimentação desejante é a morte. Assim, a experimentação exige uma prudência que é muito diferente da prudência aristotélica porque não é possível estabelecer uma justa medida a priori; prudência como dosagem que só pode ser encontrada na experiência.
– É possível colocar a arte como uma necessidade de um corpo sem órgãos?
Seja necessidade ou não, a experimentação artística pode ser pensada usando esse conceito de corpo sem órgãos. Por exemplo, através da ruptura dos cânones artísticos nas novas manifestações artísticas segundo as quais o gesto pode ficar marcado na obra, como na pintura e na dança.

Música: “Try”, Janis Joplin.

Resumo por: Camilla Felicori – Categorias: Estética e arte, Filosofia e Sociedade

(OBS.: colocar trechos num diálogo entre os protagonistas do eu, cowboy)

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