pros diabos com o amor

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“Até o dia em que passeatas não serão mais necessárias, apenas mera ameaça”.

Há alguns meses, esse era meu medo. Hoje, é esperança seria?

Explico.

Ninguém aqui levanta bandeiras. Anulo meu voto ou nem mesmo compareço às urnas faz dez anos. Apartidário convicto. E sem vocação alguma pra armar palanque em prol de interesses escusos. Minha maior motivação ao escrever este texto? Certificar-me de que não estou e nem estarei sendo conivente com qualquer um que venha a-tirar proveito político-partidário da situação só porque estou disposto a levar algumas balas de borracha no lombo — pimenta no cu dos outros, aquela velha história. Não acredito no amor, tampouco duvido dele. Conheço alguns bons causos, até.

Pra chegar ao poder, por exemplo, Haddad precisou de todo o frisson provocado na rede por conta de seus belos olhos rasgados — da mobilização popular maciça por parte de determinados movimentos sociais. O que não se diz (assunto proibido no meio) é que o Ministério da Cultura foi moeda de troca na conquista da Prefeitura de São Paulo. Um grupo teria acesso, digamos, privilegiado à Ministra Marta, ao próprio futuro-eleito prefeito e, em troca, os movimentos sociais fariam brotar amor do concreto da Praça Roosevelt, então rebatizada “Praça Rosa”. Existia amor em São Paulo, os cabeças defendiam.

O diabo, porém, veste vermelho e acabou cobrando bem mais do que 20 centavos de quem pactuou. Logo após o resultado do primeiro turno, na noite daquele mesmo domingo, Haddad caía nos braços de Russomano. O ideal de amor, aquele amor platônico, começava a escoar pelo ralo. Desculpas e exigências pipocavam nos perfis dos outrora amantes, tudo teatrinho. Cão que ladra não morde. Rosna, mas não larga o osso: Haddad bateu Serra.

E, seis meses depois, cá está de braços dados com Alckmin (em tempo: impeachment nele e em todos os governadores que admitirem o uso da força policial na coibição das manifestações em seus estados). Haddad torce a cara a seus fiéis cupidos, não demora e surge uma nova onda de chantagens emocionais pelo Facebook e o prefeito aceita discutir a relação — feito o marido bondoso e cheio de razão que recebe de volta a sua casa a esposa expulsa por ter se comportado mal na festa após uns drinks. Que sirva de lição pra quem fez campanha pró-Haddad: não existe amor na política. Somos todos palhaços.

E, após nossa Revolta da Salada, ainda somos obrigados a ficar com as palavras indigestas de Marta Suplicy entaladas em nossas gargantas: “Isso não é protesto pelo aumento da tarifa do transporte! O que esta por traz dessa incitação de violência?” (sic). Marta sabe muito bem o que estava por trás do protesto. Conhece bem as jogatinas do amor. E, claro, tem razão: não se tratam de 20 centavos.

Mas do que se trata, então? Trata-se de medo. Trata-se de esperança. Medo de que as coisas nunca mudem — só piorem. Esperança de que alguma coisa possa mudar. E não duvidem, crionças e crianços dessa Brevida (com a permissão de Juliana Amato): enquanto houver vozes que falem pelo polvo, que representem o polvo, nada mudará — mudo nadará e as lulas continuarão emergindo sob um céu tucano.

Enquanto as primeiras passeatas esboçavam mera massa de manobra mobilizada por jovens aspirantes a carguinhos políticos (é só checar por aí, uns chegaram lá; outros continuam no corpo-a-corpo pra garantir o status quo do movimento; e não estou falando do MPL aqui, lembrem-se), eu tinha medo. Um gatuno simplesmente substituiria o outro. Hoje, até tenho esperança. Porque o que vejo é a juventude hipster vivendo sua apoteose vintage, indo pras ruas e rodando seu remake de 68 com seus celulares.

São classe média? São. Continuam os senhores da ironia? Continuam. Mal sabem o que fazem lá? Alto lá. São cidadãos. Pagam o dobro, o triplo do preço por seus Macs só por causa dos impostos e não se sentem seguros pra usá-los no espaço público. A apatia política característica da geração, sempre defendi, nunca deixou de ser um ato político. Ao virar as costas à política, simplesmente afirmam: não acreditamos mais em vocês, então tanto faz; não acreditamos no Estado, em partidos, em políticos, na polícia, em qualquer tipo de autoridade, apenas no que a vida e a tecnologia podem nos dar. Pois bem. Querem mais. Querem ir e vir — de preferência, em segurança. Querem portar vinagre. Querem um sentimento encarnado, uma experiência que não virtual. Querem gozar nas ruas da mesma liberdade que gozam em suas casas, navegando.

A liberdade que nos prometeram aqueles que, em 68, lutaram pra derrubar os militares e, hoje se comprova, subir ao poder e lá se refastelar e ainda por cima se valendo da guarida dos mesmos milicos que os perseguiam. Mas, então, o que dizer da nova Lei Antidrogas? E de Belo Monte? E dos Felicianos e seus Nascituros? E das PEC’s da vida que nos revogam direitos constitucionais que nunca usufruímos, afinal? Que nem o imposto sobre grandes fortunas, há 25 anos à espera de uma lei que o regulamente? Talvez, o mais importante no meio de tudo isso, de tanta indignação: a reforma política há anos empacada, empurrada pra gaveta, incluindo aí o fim dos salários e gratificações dos vereadores, pelo menos. Não menos importante, é preciso extirpar de uma vez por todas os resquícios da ditadura de nossas vidas: que acabemos o serviço começado pela geração da presidenta e legitimemos o fim da polícia militar. A sociedade (uma parcela, ao menos) já não tem estômago e nem comporta mais qualquer tipo de comando que não horizontal.

Apesar de não ser simpático à rejeição total da autoridade, Richard Sennett defende o diálogo permanente e o reconhecimento mútuo entre esta e quem a ela se submete. Manuel Castells vai atrás e, sobre as manifestações em São Paulo, afirma: “Porque, fundamentalmente, os cidadãos do mundo não se sentem representados pelas instituições democráticas (…) Eles são contra esta precisa prática democrática em que a classe política se apropria da representação, não presta contas em nenhum momento e justifica qualquer coisa em função dos interesses que servem ao Estado e à classe política, ou seja, os interesses econômicos, tecnológicos e culturais. Eles não respeitam os cidadãos. É esta a manifestação. É isso que os cidadãos sentem e pensam: que eles não são respeitados”. E respeito, é sabido, a gente só dá se recebe de volta. Que os palhaços sejam eles dessa vez.

Meu conselho, portanto, é: não tomem cuidado. Isso não é um game. Não é hora de ter cuidado. Cuidado se tem no conforto do quarto, à frente do computador. Que isso tudo fuja do controle. Derrubem todo tipo de autoridade. Soterrem o orador. Que o poder fique nas mãos do povo, de fato, e não de quem supostamente o representa e coloca palavras na boca de uma nação de pobres filhos de pais ricos — seja de um gabinete ou de um coletivo.

Não precisamos de novos líderes, precisamos de novos mártires. Mais terror nos olhos de quem não nos representa. Precisamos retribuir um pouco do horror cotidiano a que somos submetidos nessa relação doentia de amor, a “demoncrazy” pintada pela artista plástica americana Jami Denton. Mais horror, menos amor. Sem mais promessas. Não precisamos de novas promessas de amor. Pros diabos com o amor.

Até o dia em que passeatas não serão mais necessárias, apenas mera ameaça.

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About caco ishak

deu pau no servidor da verbeat
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3 Responses to pros diabos com o amor

  1. Domingos says:

    Gosto do jeito que vc escreve. Conheci hoje teu blog através de uma postagem em que vc disseca o FDE, que aliás, já era mais do que a hora para vê-los assim, sem máscaras. E como são feiosos….Não sei o quanto o Roda Viva teve responsabilidade de catalizar as revelações que se dão agora, mas assim que chegaram ao coração da empresa tucana de comunicação pública foram desmascarados pelos telespectadores internautas, É irônico, mas a máquina que criticam os acolheu e fez assim pipocarem textos reveladores. Ainda bem que não dependemos da maioria dos entrevistadores mocorongos. Eu li também, vc deve ter lido, o texto da cineasta que colocou os FDE no cadafalso. Até o blogueiro amestrado dos Civita reproduziu o depoimento. Tempos duros se mostram para o lábios de borracha, não? Mas enfim, pretendo acompanhar seus textos, seus trabalhos. Mas sobre esse relato sobre o prefeito dos olhos rasgados… Ainda que trocamos de algozes de 4 em 4 anos, miséria da democracia de que dispomos, a horrorosa e amada por mim, cidade de São Paulo, deu um salto de qualidade. Não gosto dele? Mas nos livramos do mal da Serra, amém. E isso não, não é pouco…sob hipótese alguma.

    • caco ishak says:

      obrigado, domingos. o ponto aqui não é o governo do PT (cuja política social, no mais, falcatruas à parte, leva ampla vantagem sobre os tucanos). mas sim a cooptação de serviços e pessoas com fins partidários e comerciais sem que os cooptados tenham ciência disso.

  2. Pingback: fail again | ciao cretini

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