Bareback: a liberdade (des)embrulhada pra presente

barebackLogo na entrada, gritos e eucalipto, Q-boa e música alta escancaravam a festa. Contando com seu então parceiro, já era a quinta pessoa para quem um sujeito de porte pequeno se abria. Longe de estar cansado, porém. A euforia, pelo que aparentava, só fazia aumentar enquanto aparava com a boca jatos de esperma vindos de todos os lados da roda formada pelos que já haviam estado dentro dela e por aqueles que esperavam sua vez para entrar. E nem eram os únicos. Organismos como aquele se espalhavam pelos cantos do lugar e eram desmontados e reconstruídos uns atrás dos outros, formando uma autêntica cadeia predatória. Um pequeno detalhe: entre eles, havia portadores do vírus HIV. O risco de contaminação era dos maiores, portanto. Mas ninguém se importava com isso.

Esta bem poderia ser a pintura de uma Russian Roulette Party (Festa da Roleta Russa, em que apenas o anfitrião sabe quem é o homem-bala infectado) acontecendo em alguma mansão de uma cidade avant-garde na Europa há dez anos. Não estivéssemos em 2008 e as tintas pincelassem uma sauna gay no centro de São Paulo onde soropositivos e/ou não se reúnem para a prática do bareback – cavalgada sem sela, em tradução literal. Gíria no meio homossexual americano para o sexo anal desprotegido entre gift givers (quem tem o vírus de presente para dar) e bug chasers (quem caça sarna para se coçar).

O assunto não é novidade. Já foi abordado em filme (The Gift, de Louise Hoghart, EUA – 2002) e, em terra brasilis, Caio Blat protagonizou a peça Mordendo os lábios, de Hamilton Vaz Pereira, em 2007. Ainda assim. Levado a cabo no estrangeiro como fenômeno congregacional, há até pouco tempo o universo barebacker não passava de fantasia individual pelas plagas de cá. Sexo desprotegido não passava de sexo desprotegido no Brasil. Tesão por couro no couro. Nada mais.

“Houve quem já dissesse que meu comportamento era típico de um bug chaser, embora agisse à época de uma maneira completamente alienada em relação ao HIV/AIDS. Não houve namorados, não houve deslealdades – nomes e preservativos muitas vezes também não havia. Havia tão-somente encontros casuais entre outros homens e eu, de modo que não me sinto à vontade nem para me auto-atribuir inocência. Agia que nem um alienado mesmo e, no máximo, após um ou outro daqueles encontros, era acometido ligeiramente pela pergunta: quais são as chances? Mas a pergunta me assaltava e logo desaparecia, sem esforço”.

Igor Zanedini tinha 22 anos quando adquiriu o vírus em 1998, recém-chegado do interior paulista à capital. O sonho acabou com um “reagente” impresso em seu exame. “A soropositividade significou para mim um utilíssimo tabefe de realidade. Mas não me ponho a me afogar em lágrimas. Só me proporcionou um senso mais apurado do mundo em seu aspecto corriqueiro, onde as pessoas se vêem às voltas com um serviço público de saúde de maior ou menor qualidade, por exemplo”.

Convertido ao hinduísmo, hoje Igor leva uma “vida praticamente monástica”. Barebacking, para ele, apenas em livros e internet. Pesquisando. Mera contemplação. “Pode parecer um tanto solitário e resignado, ou mesmo pessimista, mas considero necessário vivenciar este momento de reelaboração existencial que supostamente acontece de quando em quando na vida das pessoas”.

Igor, porém, não poderia mais ser enquadrado – como ele mesmo se apressa em dizer – no perfil de um barebacker “cujas ações nos encontros giram em torno da condição sorológica das pessoas, além de poder arcar com o próprio tratamento, o que acontece nos E.U.A e Europa, e que insufla no cara um sentimento de maior independência e liberdade individual”. Pois aí está a palavra-chave.

LIBERDADE PRA QUEM? – Favorável ao sexo com camisinha entre todos, marido e mulher inclusos na lista – “até para pararem de produzir criancinhas que depois não saberão educar” -, RFB, soropositivo desde 1996, contudo, defende que “todas as pessoas têm o direito de tomar decisões autônomas sobre sua própria vida sexual, desde que em um contexto de ética pessoal e social”. Liberdade.

O que é ético para uns, no entanto, pode não ser para outros. Bingo. RFB, ele próprio, não vê mal algum no sexo sem camisinha. Seja qual for o caso. “Quem estiver preocupado com infecção, que evite um tipo desses – porque ele claramente não se preocupa com nenhuma DST. Que bom para ele (ou mau, se contrair sífilis ou gonorréia qualquer dia). Criticar uma pessoa que está na dela, apenas exercendo um pouco de sua humanidade e se proporcionando uma liberdade que talvez por muito tempo não tenha conseguido desfrutar – algo que absolutamente não é proibido – parece mais coisa de quem tem vontade de fazer, mas não consegue transpor suas próprias limitações”.

Há quem transponha. JR contraiu o vírus em 2004 aos 19 anos, numa festa bare em Porto Alegre. Ainda hoje, freqüenta o mesmo círculo em que foi presenteado. Novos “sócios” entraram desde então. “Ano passado mesmo, teve um cara que me implorou olhando nos olhos para que eu lhe presenteasse. Queria que fosse eu, entende? Até que tentei, mas ele fez o exame em janeiro e não deu nada. Quem sabe da próxima?”. Há quem ainda continue caçando, portanto. Alguns – como que por milagre – desde tempos. Em vão.

MR pratica bareback há mais de cinco anos e é soronegativo. Faz exames de seis em seis meses. Até o momento, nenhum vingou. Embora se proclame barebacker, diz ter medo de se infectar. “Mas o prazer sempre acaba preponderando sobre minha racionalidade”. E é do alto de sua razão – apesar disso – que afirma que, caso soubesse da presença de algum soropositivo em uma festa, não participaria. Engana(-se).

“Várias vezes transei sem preservativo e não comuniquei minha soropositividade. Comuniquei depois de transar. As pessoas fizeram exame e não se infectaram. Até hoje, que eu saiba, não transmiti HIV para ninguém. Cabem as perguntas: ‘Por que as pessoas negativas que transaram comigo sem preservativo não se protegeram?’, ‘Por que não perguntaram meu status sorológico?’. Não é responsabilidade minha comunicar meu status sorológico. Não é responsabilidade minha cuidar da saúde dos meus parceiros. É responsabilidade deles”.

Liberdade. Na visão de RFB (mesmo sendo um não-praticante responsável) e de tantos outros que, dentro dessa filosofia, praticam o barebacking mundo afora. Ainda que uns demais e outros de menos.

“Muitas não teriam feito sexo comigo e não teriam recebido a lição que eu apliquei nelas se eu tivesse dito que era portador do HIV. Veja: as pessoas se acham no direito de selecionar seus parceiros com base em sua condição sorológica. Eu me acho no direito de selecioná-los com base em suas reações a minha condição sorológica. E para isso, preciso testá-los. Não estou fazendo nada diferente do que eles fazem. Eles me testam para ver se sou ‘bom caráter’, segundo sua concepção do que seja isso. Eu faço a mesma coisa. Os direitos são iguais”.

O QUE A LEI DIZ E DEIXA DE DIZER- De fato. Pelo que consta no artigo 130 do Código Penal Brasileiro, a quem “expor alguém, por meio de relações sexuais ou qualquer ato libidinoso, a contágio de moléstia venérea, de que sabe ou deve saber que está contaminado”, cabe detenção de três meses a um ano, ou multa. Nesse caso, porém, “somente se procede mediante representação”. No entanto, a Aids não é considerada uma DST pela jurisprudência, já que sua transmissão também ocorre por outros meios que não o sexo (… sífilis ou gonorréia qualquer dia…).

Em 2004, o 2º Tribunal do Júri de São Paulo condenou a oito anos de prisão, por tentativa de homicídio qualificado, o motorista José Luiz Corrêa de Moura, que havia contaminado com o HIV a ex-namorada M.M.J. A decisão então inédita no país teve à época repercussão nacional e foi considerada “perigosa” por advogados que fazem assessoria a organizações não-governamentais voltadas à defesa dos direitos de portadores do HIV, uma vez que poderia ressuscitar lendas em cujos enredos as vítimas ou culpados seriam os soropositivos, dando origem a uma “caça às bruxas” para identificar os responsáveis por contaminações (Fonte: Ministério Público do Estado de São Paulo).

Em seu artigo “Aspectos jurídico-penais da transmissão da Aids”, o advogado Andrei Zenkner Schmidt defende que “embora até seja possível a existência de dolo no que tange ao futuro evento morte, a imputação objetiva do delito de homicídio não se coaduna ao caso. Os avanços da medicina têm transformado, cada vez mais, a Aids numa doença crônica, caso em que estaria ausente a tipicidade objetiva do delito. Na verdade, a transmissão da doença pode originar um fato atípico, uma lesão corporal culposa, uma tentativa de lesão corporal qualificada e, no máximo, uma lesão corporal qualificada, conforme o caso. Jamais, contudo, homicídio culposo ou doloso”.

“Na verdade, as duas partes de um relacionamento têm sua responsabilidade”. Palavras que bem poderiam ser de RFB, mas são do advogado Claudio Pereira, do comitê político do Fórum de Organizações Não-Governamentais de Aids do Estado de São Paulo. E, de maneira geral, dos próprios barebackers. “Levando em consideração que todos são adultos, cada um que cuide de si”, diz o organizador de uma das tantas festas realizadas através da Internet – o preço a se pagar por um latifúndio de prazeres. Além da liberdade.

HETEROS NA RODA – O caso do motorista, de todo modo, atenta para um fato relevante e reiterado várias vezes nos discursos gays: “é preciso convir que o barebacking sex constitui prática mais ou menos disseminada tanto entre homossexuais quanto entre heterossexuais e bissexuais, que ainda não assimilaram perfeitamente as campanhas de prevenção para o uso do preservativo, seja por não acharem o preservativo confortável, por confiança no parceiro, pelo desafio de contrariar o estabelecido, seja lá por qual motivo pessoal que leve as pessoas de diferentes orientações sexuais a fazê-lo”.

Igor é taxativo ao não dar uma conotação restritiva à prática. Grupos de risco, para ele, é um conceito que devia ter morrido com os anos 90. “Estatísticas comprovam que entre homossexuais o hábito do sexo seguro se faz muito mais presente do que entre heterossexuais”. A informação procede. Um boletim epidemiológico divulgado pelo Governo Federal em 2007 mostra que, em 1996, dos casos registrados em homens, 29,4% foram em homo/bissexuais; 25,6% em heterossexuais; e 23,6% em usuários de drogas injetáveis. Dez anos depois, no entanto, foram 42,6% em heterossexuais; 27,6% em homo/bissexuais e (apenas) 9,3% em usuários de drogas injetáveis.

“Eu e uma amiga ficamos imaginando o que ia acontecer caso alguma de nós estivesse infectada. Seria um pandemônio, porque estariam eu e, a partir de mim, mais uns cinco caras. No meio deles, um que depois trepou com essa minha amiga. E, a partir dela, mais uns quinze caras. Da última vez que a gente contabilizou, eram pelo menos umas vinte pessoas conhecidas. Fora aqueles com quem esses vinte devem ter ido para cama e assim por diante”. Tão logo a ficha caiu, a artista plástica Bettie G. caiu junto na gargalhada. Talvez compreensível a ausência de lágrimas?

O mesmo boletim de 2007, pois, afirma ainda que, após cinco anos da infecção, mais de 80% dos portadores do HIV continuavam vivos – e bem, obrigado. Os outros 20% seriam justamente pacientes que demoraram a procurar tratamento e acabaram morrendo em decorrência de infecções oportunistas (o que foi confirmado por um novo balanço divulgado em fevereiro deste ano).

Foi de olho nesses resultados e em estudos de vários outros países, que a Suíça se tornou, em janeiro, a primeira nação a reconhecer oficialmente que, sob tratamento anti-retroviral, portadores de HIV podem ter sexo sem preservativo e sem risco de contágio – inclusive para gerar filhos saudáveis e concebidos após a infecção.

De acordo com o comunicado da Comissão Suíça para Questões Ligadas à Aids (CFS, na sigla em francês), “uma pessoa portadora de HIV, submetida a uma terapia anti-retroviral que funcione, não transmite o vírus da Aids através de contatos sexuais”. Não que seja assim tão simples. Três condições básicas são exigidas: que a terapia tenha combatido o vírus de tal forma que ele não seja mais encontrado no sangue durante seis meses; que esta mesma terapia seja religiosamente seguida pelo paciente e regularmente controlada pelo médico; e, claro, que o paciente não tenha outras DST.

“Se a CV (carga viral) da pessoa está aumentando, significa que o vírus está se replicando e, logo, sofrendo mutações. E se a pessoa não toma medicamentos corretamente, permite também que o vírus se replique e, logo, sofra mutações”. RFB arremata mais uma. Ou seja: não siga os três passos e tudo vai por água abaixo. E assim entramos no tópico reinfecção.

O FANTASMA DA REINFECÇÃO – Infectologistas afirmam que o sexo desprotegido entre portadores do HIV pode mudar a relação da quantidade de vírus presente nos organismos (a dita CV) com a capacidade de defesa do corpo de cada pessoa – o CD-4 (grave esse nome).

“Os vírus que todo portador tem (não importa qual seja o tipo) sofrem mutações quase todas as vezes que se reproduzem. As mutações, por sua vez, também vão mutando e podem inclusive voltar a ser o que eram – muitas nem vingam. Conclusão: é bastante fútil para um portador de HIV temer adquirir uma cepa resistente de outro portador, sendo que ele próprio tem todo o potencial de produzir uma a qualquer momento, principalmente se não estiver tomando ARV’s”. RFB é professor. Dizendo ele, ganha o respeito de seus alunos dominando o conteúdo sobre o qual versa.

De seus alunos. Do infectologista Alberto Tibúrcio, não. “A reinfecção poderia prover um modo para o HIV ganhar rapidamente fitness (capacidade de replicação). Isto poderia ser através de recombinações entre as duas cepas presentes. E é um maior fitness viral que determina as conseqüências clínicas da reinfecção. Reinfecção significa invariavelmente progressão clínica da infecção? Não, se a nova variante do vírus tiver fitness semelhante à primeira variante adquirida. A infecção crônica pelo HIV não garante, porém, que a pessoa esteja imune a uma reinfecção. Pergunta-se: é um fenômeno comum ou consequência de um déficit imunológico específico individual?”. Quem sabe um dia, a resposta virá.

Enquanto não vem, eles cavalgam. Livres agarrados ao pêlo. Uns mais ortodoxos, talvez, outros nem tanto. Uma coisa miscigenada. Desorganizada. Um samba do criolo doido bem nosso. Mas que compartilha algo em comum com todos os dois milhões de europeus e sete milhões de americanos barebackers que puxam o gatilho na dúvida de que se vem bala (embora sempre sem papel) ou não. A perda do medo em tempos de Aids.

“Tanto o medo cultivado há décadas com relação ao HIV/AIDS, quanto aquele falar à toa de quem diz ‘Pouco me importa. Hoje, há o coquetel’ e que poderia sugerir um destemor com relação a uma possível contaminação – um e outro não passam de posicionamentos pessoais advindos da ignorância auto-infligida. Nem excessivamente simples, nem excessivamente complicado”. A liberdade de Igor.

(matéria originalmente escrita em 2008)

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