Das coisas que (não) vi e (não) vivi em Macapá

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Aeroporto Internacional Val-de-Caes. Belém do Pará. Onze e meia da noite. Duas horas antes do vôo e já estávamos na fila do check-in, eu e Saul Smith, guitarrista da Vinil Laranja – fomos de carona com Andro, também da banda, que estava com o carro emprestado da mãe e tinha que entregá-lo antes da meia-noite, quando ela sairia pra enfiar o pé na abóbora. Sem nada mais pra fazer até embarcar, resolvemos continuar a beber. Alguns passos adiante e, grata surpresa, encontramos Nicolau Amador, presidente da associação paraoara Pró-Rock, guitarrista e produtor das bandas Norman Bates e Suzana Flag. E camarada o bastante pra nos pagar a conta. Duas doses de cana, mais uns quatro chopps – só eu. Não conseguia conter a emoção de estar indo à primeira edição do Festival Quebramar de Música Independente, levado a cabo pelo Coletivo Palafita. Tanto quem pagou, quanto quem bebeu.

Macapá. Reza a lenda mais ao sul, a capital do feudo administrativo de Sarney tem só um edifício com mais de cinco andares. Marco zero. Pra muita gente. E fim da linha pra outros tantos. Quando não se tem (ou não se resta) nada a fazer, sobra energia. Aí, não tem quem segure. A massa, quando acorda de um estado prolongado de torpor, é incontrolável – algum behaviourista já deve ter dito coisa parecida, de forma um pouco mais rebuscada. O bom e velho “cabeça vazia, oficina do diabo”.

Da minha, tinha tomado conta fazia tempo. Desistir, porém, jamais. Um, dois, um, dois. Sincroniza. Nem precisa erguer a cabeça. Só anda. O mais difícil, que era chegar, estava feito. Dali pra frente, moleza. Tem mais é que arriscar. Às vezes, babe, o fim é apenas o começo. Certo é que, da banda alagoana Mopho, que chegou conosco, não senti nem o cheiro. Nem deles, nem dos Bongs também ali. Já o peso de Sady Pimenta, da hostess Mini Box Lunar, impossível não sentir. Direto no cangote. Nocaute. Joga no carro. Diones Correia, moleque doido do Coletivo, e Cid “meu sósia” ajudaram na missão. Dormi a viagem toda, acordando de curva em curva só pra falar merda. Não demorou, chegamos. Enfim, em casa. No caso, a do Sady.

Acordei com o futum de macho empestando o quarto de janelas fechadas pra sustentar a rede improvisada em que eu dormia. Não bastassem os irmãos Pimenta (na real, Pantoja), dois galalaus com quem já tinha me acostumado nas duas outras vezes em Macapá pra acompanhar as prévias do festival, agora também tinha um negão suando ali. Foi quem tentei acordar primeiro. Mas Saul não acordava nem na base da porrada. O jeito foi me contentar com a megalomania de Sady, siempre alerta, me narrando os causos da noite anterior e como eu cheguei já abraçando uma garrafa de vodka e me lamentei até cair por ter perdido o Tanto Faz, do Reinaldo Moraes, numa tentativa frustrada de leitura durante o vôo. OK, você venceu. Fui tomar um banho.

No box, quase escorrego e bato a cabeça. Putamerda, o Mautner não vem mais. Lembrei de supetão que alguém tinha me soprado a notícia na noite passada. Quebrou a perna, não pôde embarcar. Coisa assim. Pois foi o Deus do Tempo e da Morte quem profetizou o Kaos. “Break a lega, moddafockas”. Recado dado. E compreendido. Copiado. Farinha. Saí do chuveiro afoito.

“Bora logo pra Unifap, porra”.

Engolimos umas salsichas e lá fomos com o sol das duas no lombo rumo à Universidade Federal do Amapá, jogando conversa fora. Sady e Saul. Eu, calado, contendo os mínimos movimentos do rosto pra ver se conseguia estancar o suor. Isso, no começo. Uma hora depois, era enjôo mesmo. O fedor era dos bons quando, indo por um atalho providencial que Sady nos arranjou, passamos pela Alameda das Moscas. Contei umas quinze ossadas de cachorros estraçalhados fazia uns dias e algumas dezenas de urubus prostrados na cerca ao longo da via, fazendo a digestão enquanto o sol não baixava um pouco pro banquete recomeçar. A impressão era de que aquelas carcaças ressuscitariam a qualquer momento e nos arrastariam pelas canelas pra debaixo da terra. Mas continuaram imóveis e seguimos em frente.

Tivemos alguma dificuldade em reconhecer o palco principal quando chegamos à universidade. Talvez porque, faltando cinco horas pro espetáculo começar, ele ainda estivesse no chão. “Os caras vieram montar de manhã, mas os seguranças barraram o caminhão na porta. Já tá tudo resolvido, devem estar chegando”, fomos informados no Quartel General por Otto Ramos, da Mini Box Lunar e da stereovitrola e do Palafita. “Enquanto isso, Sady, fica tomando conta dos equipamentos que estão lá”. Positivo, operante. Como se Sady tivesse emergências a resolver na internet, incumbiu-me de ir sozinho.

Duas horas de espera e uma recusa de convite pra tomar uns gorós feito pelo diretor de palco importado de Belém, Edvaldo “Azul” Souza, o caminhão chegou. O palco estaria erguido por volta das dez da noite. O que seriam três horas de atraso prum festival em sua primeira edição, afinal? Caos. Certeza que estava talhada nas expressões de todos. Nada mais a fazer, senão esperar. E aproveitar a programação paralela – coletiva de imprensa, workshops (aqueles em que os ministrantes compareceram), exposição de fotos e pinturas. Fugir do destino pra quê? A primeira latinha do dia foi aberta. Não sei se por causa da segunda e da terceira e das que se seguiram, sei que o tempo até que passou rápido. Quando resolvi olhar pro lado, já eram nove horas, o gramado já estava cheio de gente e o palco jazia montado – antes do previsto. Let the show begin.

Após o primeiro riff, afinal, quem se importa com atrasos? “Eu não ligo”, berrava o vocalista da local Relles, from the muddy banks of Wishkah. Nem nenhum dos que tinham entrado de graça e batiam cabeça na apresentação seguinte, da Klethus, que mostrou por A mais B que Roraima, white metal e mulher na guitarra combinam, sim senhor. “Essa doida agita, velho”, comentou um passante sobre Ellen Carmaine, que subiu às pressas com sua banda pra tocar no lugar de Roni Morais, às voltas com o atraso de sua esposa e não tendo mais ninguém pra tomar conta do filho de colo. Mas eis que a digníssima Senhora Morais enfim chegou e Roni pôde embalar o sono de seu rebento com sua música popular brasileira mesclada ao que de melhor a terra oferece. Mas sem regionalismos pilantras. “Rapaz, curti o som desse cara. Melhor que Nilson Chaves”, confessou-me, atrás do palco, um Azul satisfeito com o papel que desempenhava ali.

FIM DE NOITE: O QUASE QUEBRA-QUEBRA

Imprevisto nenhum conseguia tirar a satisfação de ver que tudo corria bem, no fim das contas. O problema é que o pontapé inicial mal havia sido dado e uma noite toda estava por vir. Estávamos no quarto show, com a amapaense Dezoito21 passeando por seus arranjos progressivos à la Gessinger – justiça seja feita, melhor do que qualquer coisa que os Engenheiros do Hawaii gravassem hoje em dia – quando o pau da barraca foi chutado de vez. Os portões da Unifap estavam fechados. Algumas dezenas de pessoas do lado de fora. Onze e quinze da noite e ninguém mais podia entrar – nem sair, seguindo a lógica. Novamente eles: os seguranças que, passando por cima de uma ordem escrita e assinada pela Pró-Reitoria, resolveram acabar com a festa. Simples assim. Vai entender. Maldito Mautner. Pensou em tudo, o sacana.

É claro que abandonei a música e corri pros braços da cagada. Tão logo cheguei, um metaleiro que me acompanhara até lá em passos tão largos quanto os meus urrou meia dúzia de palavras encolerizadas e cruzou os portões, ameaçando em código que voltaria. Não demorou. E a seu “liberdade ao roooock!!!”, seguiu-se um “pu-la, pu-la, pu-la!!!”. Aquilo, sim, era pra entrar na história. “Vamo arrebentar essa porra que eu quero ver”. Quem tinha arma, estava com a mão no coldre. “Fica na posição, que vai rolar tiro”. Babado quente. Logo virou o assunto entre os indignados do lado de dentro. Enquanto isso, bem pr´além dos portões… a ladainha continuava. E pula, não pula. Pula. Não pula. Pula, não. Pulou. Ninguém o seguiu. Saiu correndo pelo campus, fugindo de ninguém, direto pros braços do rock.

Penso: “Vou só comprar uma cerveja e já volto”. Fui. Espera. Caralho. O som parou, porra. Resumo da história: a mulher do cara da mesa de som tinha sido barrada no portão e ele resolveu se rebelar, deu um foda-se e desligou o som. “Já curti mesmo. Já bebi todas, já fumei todas. Foda-se vocês (sic)”, ilustrou bem um dos primeiros desertores a passar por mim a caminho da rua. Havia de tudo na multidão. “Vocês não merecem isso. O que foi essa arrumação? Cadê meu crachá? Peguem suas vassouras elétricas e voem, bruxos e bruxas”, saiu pregando uma professora tropicalista da universidade.

Enquanto eu brincava de Repórter Esso, Otto corria atrás de uma solução ao lado de Heluana Quintas e Paulo Zab. Em cima do palco, banda alguma. Apenas o anfitrião Bio insuflando a rapeize a arrebentar os portões. Eu, bebendo e observando o fluxo de gente que fazia o percurso contrário ao pregado no microfone. Tudo resolvido, uma hora depois, e a liberação da entrada finalmente concedida, já não havia mais viva alma na Unifap. Nem dentro, nem fora. O coletivo se reunia pra discutir as ações do dia seguinte no intuito de antecipar a solução de qualquer eventual contratempo no segundo dia. Se é verdade que muito se aprende num primeiro festival, evitando as mesmas dores de cabeça numa segunda edição, a premissa valeu pro Palafita desde o primeiro dia.

SEGUNDO DIA – FAMI: A CONTRA-RESISTÊNCIA

“Onde tu te meteu ontem, careca fiadasputa?”, Sady perguntava com a mais cínica das expressões. “Chegamos, tu não disse nada, pegou a garrafa de vodka, saiu pela porta e sumiu por umas boas duas ou três horas. Voltou, nem resmungou, deitou e dormiu”. Ainda sem mais palavras, levantei-me e peguei o caminho da rua. Dessa vez, consciente de que estava, novamente, sozinho.

Não consegui chegar a tempo, por pura falta de comunicação entre as partes, na reunião inaugural do Fórum Amazônico de Música Independente. O FAMI. Até teria chegado. Se não tivesse ido parar no outro lado da cidade, na Unifap. Debaixo do mesmo sol da porra do dia anterior, que seguia tostando as carcaças espalhadas pela Alameda das Moscas. Chego. Cheio de ninguém, a Unifap. Resolvo sacar meu celular. Todos estavam no hotel, a beira-rio. A reunião já ia começar.

“Pega uma moto”.

Voltar andando é que eu não ia. Atravessei a passarela e fui pro ponto de ônibus do outro lado da rua. Tomaria o que chegasse primeiro. Só que não chegou nenhum. O tempo passava e nem sinal de uma condução. Voltar atrás é sempre uma opção a ser levada em consideração. Voltar a pé, no caso, era a única. E lá fui outra vez debaixo do sol. Metade do caminho, encontro uma moto-táxi. Alegria. Das de pobre. Mal durou o tempo do percurso até o hotel e já se foi ao descobrir que a reunião tinha acabado. Martelo batido. FAMI gerado.

A lista eletrônica criada a partir da reunião inaugural, porém, conseguiu ilustrar bem os mecanismos dessa máquina esquecida no meio da floresta amazônica. Parece ser ulterior aos que aqui chegaram. Diálogo bom é monólogo com platéia. E ai de quem piar. Briga-se por qualquer coisa (vide as quatro prévias do QuebraMar, todas acabando em quebra-pau). O que não quer dizer que haja vencedores. Prevalece o espírito auto-indulgente que leva a uma auto-estima baixíssima e o consequente sentimento de rancor. Qualquer boa intenção que ameace surgir pelas plagas de cá é prontamente arrancada do pé por picuinhas menores. Em outras palavras: rancor emburrece.

Daí a cautela na hora de afirmar qualquer coisa em relação à região. Fazendo um paralelo com a cena paraense de 10 anos atrás, de onde basicamente tirei a inspiração pra pintar o quadro do parágrafo anterior, chegamos a uma importante diferença: comunicação. Se antes todos se matavam e ficava por isso mesmo, tudo jogado pra debaixo do tapete sem que ninguém apurasse nada, hoje a ferida é mais exposta. Todos os olhos se voltam pra região. Todos os ouvidos querem escutar o que está sendo arranjado aqui. Há braços em bom número desejando trabalhar por uma causa maior, algo que valha a energia gasta em troca de remuneração alguma. Ao tempo em que há ferramentas que possibilitam a mobilização e organização dos agentes amazônicos, mas há os que preferem subutilizar estas ferramentas ao transformarem-nas em porretes. Resta saber se o canto de um índio isolado irá prejudicar as relações de tribos inteiras e, assim sendo, mais índios se tornarão desertores e sairão mundo afora sozinhos, com o talento guardado no bolso.

Mas quem vai imaginar um furacão desses na euforia de uma reunião inaugural? No meio de um festival, então, fica ainda mais difícil não se empolgar com o feito, do qual não há como se tirar o mérito – antes exterminar obstáculos que insistem em impedir que ele prossiga com sua proposta original. Foi com esse sentimento de “beleza, nada de dever cumprido por enquanto, mas que tá andando, isso tá” que todos partiram rumo à segunda noite de festival. E que noite.

Sete em ponto e a 12voltz estava em cima do palco. Mais uma boa revelação de Macapá. A certa altura, entre um timbre Hermano e outro, o cabo da guitarra se soltou. Ponto pra cozinha, que mandou muito bem no improviso. Fica a dica: mete um backing vocal e tira os bonés dos caras, que fica nos trinques. Pena que tocaram pra ninguém. Talvez traumatizados pela noite anterior, o público tardou em chegar no segundo. Mas chegou. Não a tempo de ouvir o testemunho do vocalista da white metal só Q-boa Profética (“ouço rock desde os 12 anos, é muito bom tocar rock”) ou os mods paraenses da Clube de Vanguarda Celestial, que literalmente atravessaram o rio a barco pra tocar no festival – quase não chegam a tempo.

Com a local SPS12 e seu hardcore malhação, porém, a história foi outra. Já havia quem pular com o peso dos moleques. E pularam bonito. E, dobradinhas AmaPará, continuaram pulando com Aeroplano e o show que deixou muito marmanjo veterano do rock de queixo caído. Perseverando na receita que dava certo, a dobradinha seguiu com o metal suckmydickandieano da Jolly Joker (“tu viu como eles são machistas?”, indagava uma amiga à outra depois do show) e a psicodelia shoegazer da stereovitrola, cujo ponto alto foi “a última canção, Canção para Syd barret, com o baixo distorcido e viagens de guitarra e teclado no meio da música”. Marinho Pereira.

Só com um cara da banda pra dizer o que rolou dali pra frente. Não me lembro de muita coisa – ou o que lembro não tem como ser levado tão a sério assim, vide a pancada na cabeça que tomei de um cata-vento colorido, daqueles gigantes. Resultado: apresentação da paraense Turbo – não vi. Mas ouvi os comentários no dia seguinte e não podiam ter sido melhores. Camillo Royale virou ídolo pelas plagas de lá. Idolatria que a local Mini Box Lunar, por sua vez, apenas consolidou. Merece um parágrafo à parte. O assunto é sério. Tão sério que prefiro deixar pro parágrafo que antecederá o parágrafo final – ou quase isso.

Este parágrafo, portanto, deixo pra confessar ainda que, sim, perdi o retorno triunfal da alagoana Mopho aos palcos e que só acordei pro show que fechou a noite e o festival, dos mato-grossenses da Macaco Bong, e que puta espetáculo que eles deram. De ficar me perguntando se eu tinha acordado mesmo ou se tinha embarcado de vez num surto hipnótico. Num surto tamanho que me fez acreditar novamente em utopias e quebradeiras, ao tempo em que me tornava o maior dos céticos. Bruno Kayapy de joelhos dando boa noite com sua guitarra.

Jj, da Mini Box Lunar, de joelhos dando tudo de si, sangue e suor e lágrimas – e chegamos ao parágrafo de assunto tão sério. Sério porque podia ter sido o melhor show da noite, mesclando tudo que fora apresentado até então: do popular à lisergia, da melodia à distorção. Sério porque se trata de uma banda em que os músicos são também as principais cabeças por trás do Palafita e, consequentemente, do QuebraMar. Sério porque os mini-mini subiram ao palco sabendo que teriam de abrir mão de seu repertório em troca de apenas cinco músicas por conta de uma causa maior, em prol do coletivo. Sério porque dá corda pra questões do naipe “que porra de distância é essa que faz uma banda tão fodida de boa não ser vista, apreciada e reconhecida?!”. Sério porque traz questões que podem levar a questões bem mais complexas.

Por maior que Belém seja, acaba se afundando exatamente na soberba da certeza de ser o tesouro perdido que pirata algum foi ainda capaz de encontrar. Macapá compensa o tamanho pela capacidade de ouvir e aprender com quem já fez e fez direito. O que acaba se revertendo numa quantidade maior de bandas, sim, no caso da primeira, mas numa quase equivalência entre as duas no quesito qualidade. As poucas bandas de Macapá parecem saber o caminho das pedras. Se precisarem cruzar o rio pra seguir a trilha, já provaram não ter medo de tormenta.

Viver num eterno caos~cosmos~caos. Quem fará o papel de yin e quem fará o papel de yang, eis a grande questão. De minha parte, sei das minhas andanças e tratei de não tomar conhecimento do sumiço de Sady e de Saul. Missão cumprida, subi numa moto-táxi e embarquei no avião de volta, sem olhar pra trás.

“E fogo na pipoca deles”.

God bless Aberdeen.

(texto originalmente escrito e publicado em dezembro de 2008 no site da revista Dynamite)

(foto de Renato Reis)

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