npdet no G1

Sobre o nome do livro, o escritor mantém um mistério e revela apenas um pouco da origem. “Eu roubei de uma conversa…”, conta em meio a um riso tímido. Comum a outras obras literárias, “Não Precisa Dizer Eu Também” deixa no ar se o amor contado em verso partiu de vivências protagonizadas pelo próprio escritor.

o resto da história, no G1 Pará.

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npdet na gotazkaen

Não precisa dizer eu também from Gotazkaen Studio on Vimeo.

desculpa encher tanto o saco, semana que vem acaba. mas o vídeo ficou foda (já tem tudo quanto é palavrão, mesmo, ficou faltando só foda ). mérito todo do Gotazkaen, que conseguiu botar um mínimo de ordem no meio de tanta falta de eloquência. bonito seria a palavra. ficou bonito.

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conexão cultura

logo mais, vai rolar um papo com Sammliz Samm no programa conexão cultura, na 93,7 FM ou aqui.

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npdet no diário do pará

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“Esse livro é sobre amor, diz-que”, explica modestamente o escritor e jornalista Caco Ishak, 32 anos, quando questionado sobre o teor do mais recente livro “Não Precisa Dizer Eu Também”, que será lançado hoje à noite na livraria Fox. “Não sobre minhas mulheres, mas para elas. De um jeito que, talvez, possa acabar sendo para outras tantas. E tantos. Se chegar a tanto. Se é sobre amor, logo, é sobre mentiras e traições. Assim, sobre a vida. Nada muito esclarecedor, porém”, segue a divagar sobre o trabalho que chega às prateleiras após um hiato de quase sete anos após o último título publicado.

Na obra constam 36 poemas escritos entre 2007 e 2010 que traduzem às esperanças e dores indissociáveis do amor. Mas este sentimento não permeou a ideia inicial das letras deste livro, contudo emergiu diante dos olhos do autor graças às sensações suscitadas após a leitura de cada poema. “Não pensei: vou escrever um livro de poemas sobre o amor. Só vou escrevendo, sobre amores, vícios, meus gatos, minha filha, Michael Jackson (ela é fã), meus discos, meus filmes, pão com manteiga e Toddy, urubus, o Jurunas, Belém, Goiânia, um banheiro. Susan Miller (escritora), por quem nutro um carinho especial. Só vou escrevendo. Quando achei que já tinha material o suficiente para um livro, tentei botar alguma ordem no terreiro, amarrei as pontas e voilá. Ou seja: nada em especial”, conta Caco.

PRODUÇÃO INTENSA

Nos quase sete anos que ficou sem publicar um livro, Caco não ficou parado, a produção nesse período foi intensa e não apenas no que diz respeito à literatura. “Minha filha tem nove anos, daí tu tira. Não a reproduzi nesses sete anos, mas deu trabalho. O melhor de todos, por supuesto. Talvez, o que tenha feito com que eu começasse a escrever o livro, em 2007”, argumentou Caco.

Segundo ele, em 2009 passou duas semanas trancado em um quarto de Salinas. Era abril e ele escrevia a primeira metade de um romance. “Tive que voltar para realidade, para Belém, e só pude retomar em setembro, quando me mudei para São Paulo, mas antes dei uma passada no Rio, onde escrevi o resto em outras duas semanas. Cheguei a mandar pra alguns amigos, mas está na gaveta desde então, à espera de revisão. Um dia, tomo coragem. E, sobretudo, sobra tempo”, diz sobre o romance “Eu, Cowboy”.

Caco foi tocando outros projetos, escreveu alguns contos, “algumas bulas, muita mentira, e o argumento de uma graphic novel”, comenta. “Parece piada, eu sei, provável que seja, mas, se pouca coisa der errado, começo o roteiro ainda no primeiro semestre, paro o Fábio Vermelho (ilustrador) poder dar início aos quadrinhos. Enfim, fui pra São Paulo fazer mestrado, o que acabou tomando um bom tempo da minha vida. Concluí só em 2012 porque resolvi me meter com projetos culturais do meio pro final. Casei pelo caminho. Tentei formar uma banda. Hoje, estou traduzindo o primeiro livro”, destaca.

PERFIL

Caco Ishak é paraense de Belém, onde mora desde os cinco anos, embora tenha nascido em Goiânia, em maio de 1981. Escritor, jornalista e tradutor literário, quer começar ainda no primeiro semestre de 2013 a trabalhar na revisão de seu primeiro romance, Eu, Cowboy, escrito em 2009 ao longo de quatro semanas divididas entre Salinas (PA) e Copacabana (RJ).

Foi idealizador e curador da primeira galeria virtual brasileira, baixo.calão (2007-2010), voltada à arte urbana e ao lowbrow. Acabou virando Mestre em Epistemologia da Comunicação pela USP.

(Elias Santos — Diário do Pará)

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capa e miolo

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npdet-vermelho

capa padrão (embora a minha seja a mais bonita) da supimpa Série Poesia, da 7letras.

a arte do miolo fica por conta do fábio vermelho.

 

o lançamento em belém será no dia 20/03 @ livraria da fox.

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Hell City — ou Grito Rock Cuiabá 2009: eu fui

gritojj

Sexta-feira de carnaval e eu novamente na sala de embarque do aeroporto internacional de Belém.  “Escreve alguma coisa sobre o relançamento de On the Road no Brasil”, Cláudia Reitberger tinha pedido, dias antes. Escrevo.  Aproveito e vou relendo no caminho pra Cuiabá e fecho um pacote só: resenha do livro, exposição da baixocalão e cobertura do festival, além de metade da Minibox Lunar se perdendo comigo estrada abaixo, apertados no carro com mais dois da Vinil Laranja. Carentes de la plata que estávamos ou somos, descer a Belém-Brasília dividindo o tanque por seis parecia ser a opção mais viável pra chegar em nosso destino. Mas só parecia. Não tendo passagens nem pra chegar a Belém, os macapaenses corriam o risco de perder a oportunidade de tocar pela primeira vez pr´além das fronteiras amazônicas. Precavidos, os laranjas trataram de bancar seus bilhetes aéreos, caindo fora já na quinta. A estrada era passado – pretérito mais que perfeito, conjugado na toada de uma marchinha fanfarrona, um ode à vida como ela fora e não como deveria ser, resignação.

Celular toca. “Conseguimos as passagens pela Secretaria de Cultura. Só pra te avisar”. Jj Nuñez, do outro lado da linha e do Rio Amapá, mal dá a notícia e desliga. Resignação? Minha ode à vida, canto na toada de meus dedos num teclado de computador, com ou sem fanfarra – obrigação. Lá se foram minhas economias numa passagem só de ida. Se era pra ser assim, que acabasse sem estradas, nem quarenta horas de dor ao volante. Coloquei os desenhos de Fabiano Gummo e Kael Kasabian debaixo do braço e segui rumo ao aeroporto, com a cara só sono. Se sairia coisa que prestasse do Grito do Rock na cidade pantaneira onde a folia toda começou pelas mãos do Espaço Cubo, não sabia dizer. Levava tão-somente uma certeza na mochila: ia a Cuiabá pra me encontrar com Macapá. O resto era futuro. Ainda que do pretérito.

Uma vez em Hell City – o clima em nada fazia jus à fama: vinte e cinco míseros graus, nublados e secos –, primeira missão já na ponta da agulha: voar pro Clube Feminino, onde o pau toraria dali a pouco, pra organizar as exposições física e virtual da baixocalão. Tinha de encontrar um jeito de chegar à Rua Voluntários da Pátria. “Aqui, ninguém sabe nome de rua, não”, foi logo confessando uma voluntária do Maranhão. Foi visitar a filha. Ficou.

Frustradas as tentativas inicial e algumas seguintes, consegui me deixar a uns cinco quarteirões do destino – e tendo plena noção disso, enfim. Um sorriso maroto foi esboçado. Um cigarro aceso. Um susto tomado. O ronco saiu das profundezas do inferno cuiabano. E o diabo foi escoltado ladeira acima por uns trinta motoqueiros YMCA – de uma senhora chopper (maior que carro popular) abrindo alas na avenida a uma lambretinha das vagaba acompanhando solitária a procissão. “É carnaval, pai?”, ao que o menino de seus quatro anos recebeu um “é, meu filho, agora vamo embora”.

Também fui. Dobrei a esquina e cheguei onde queria. Subi a rampa de acesso em câmera lenta. A trilha sonora da banda que estava passando o som no andar de cima acabou se embaralhando na cabeça e nem deu pra reconhecer nada. Levantei os olhos, o anfitrião e baixista da Macaco Bong, Ney Hugo, encarava sua prancheta ao pé da escada. De seu ouvido, Capilé.

Verborragia ambulante e lenda por façanhas tantas na cena independente, com o Capilé não tem dessa: é na cartilha do dá ou desce. “Pensei que cê não viesse”. Pois digo o mesmo. Mas lá estava, cara a cara com o Presidente da Abrafin, uma espécie de Oz do Pantanal, capaz de tirar de sua engenhoca duas das mais festejadas bandas nos dois últimos anos (Vanguart e os Bongs, ambos de Cuiabá), um festival realizado a um só grito em quarenta e nove cidades brasileiras (mais Buenos Aires e Montevidéu) e o Cubo Card, um sistema monetário paralelo baseado na economia solidária (de deixar Fernando Henrique e Lula, os dois juntos, no chinelo). Dizer que o cara é responsável pelo Calango, um dos gigantes no circuito dos festivais, a essa altura, seria quase nada. O que, por mais lugar-comum que possa parecer e mais ainda que se pareça esta justificativa, acaba levando a uma pertinente questão: WTF´s Capilé? O “W” valendo tanto pra WHO quanto pra WHAT. Não é à toa que estamos falando de um espaço chamado Cubo (Mágico), meu camarada.

Quebrar a cabeça parecia ser rotina por aquelas bandas. Primeira missão mode on. Onde pendurar los debujos? Analisava as possibilidades com cara de perdido, quando Bárbara Rosa, estilista do Coletivo Novo, tratou de me encontrar. Com a ajuda da versão feminina de Beto Lee e responsável pela exposição dos artistas locais, não foi difícil estabelecer um mínimo de organização dentro dos limites de meu campo visual. Algumas outras poucas palavras trocadas e já começava a me organizar também fora dele. Mission accomplished. Ou quase isso.

Os portões ficaram abertos até as dez. Depois, só pagando. Com a ênfase dada pelos seguranças na porta, o clima era de barrados no baile, sem o glamour e o final feliz de Hollywood. Crianças choravam pra economizar os dez pilas da breja – outros choravam pra sair e fumar em paz um cigarro na rua. Em Cuiabá é assim.  Mão no freio, pé no estribo. Cavalo brabo não se cria.

cubobarDe resto, cria-se de um tudo. Terra das boas, essa, rapaz. O guitar hero Bruno Kayapy, da Macaco, que o diga. Mal precisei pedir, já veio me dando provas de que não tem disso de quintal de Goiás, não. “Aqui se planta, aqui se colhe”. Kayapy é discípulo fervoroso de Capilé. Tem um cubo tatuado no braço, tamanha é a crença na filosofia “artista igual a pedreiro” – tal qual os demais da banda. Enquanto corria como diretor de palco, Ney botava a transmissão via web pra funcionar e Ynaiã Berthroldo, ordem nas bilheterias. Todos exerciam suas funções sem arredar os pés de seus postos – a não ser que fosse mesmo necessário.

Quando do desfalque da primeira banda da noite, Marthyrium (AP), por exemplo. Não tem banda pra tocar? Não tem gente pra assistir porque não tem banda pra tocar? SuperCubo, ativar. Macaco Bong neles. As janelas abertas levavam o apocalipse sonoro do palco pras ruas. Adolescentes que tinham entrado de graça antes das dez mandavam mensagens de seus celulares pros coleguinhas. De tijolo em tijolo, pagante a pagante, o trio dourado de Capilé repassava o legado adiante: vão e pegam o touro pelos chifres.

E que tourada. Ney Hugo masturbando seu baixo, entre sussurro e outro de Barry White em seus quadris, cadenciava a sopa brazuca noise jazzy roots acompanhado por Ynaiã, versão Seu Jorge + Jar Jar Binks batucando que nem Carlinhos Brown, três vezes mais macho – um cavalo trotando, só que com a majestade de um puro sangue. Coice elegante, mas porrada do mesmo jeito. “Não sabia que três caras numa banda pudessem tanto”, as I´ve heard once. Kayapy provoca a rapeize. Não é todo festival que pode se vangloriar de abrir com o melhor disco de 2008, segundo a revista Rolling Stone.

Metade do show e o público tinha dobrado, ainda que imperassem emos mandando o dedo do meio pras câmeras após um tchauzinho. Já dava pra começar o festival pra valer. Tocar depois dos Bongs, porém, requer cautela. Com muito caqueado nos vocais, a Leão Sem Dentes (MT) subiu ao palco apenas pra não deixar a moçada esfriar com seu som mezzo Bon Jovi mezzo rock nacional 80´s.

Com a chapa ainda quente, não custou pra Vinil Laranja (PA) tomar conta da festa com os gritinhos do vocalista Andro Baudelaire. Verdade seja dita, o público ficou meio acanhado de início. “Esse é fresco”, soltou um from the uk. Fresco? Um dos psychos da holandesa Cenobites, que fecharia a noite, passeava pelo salão com uma mulata a tiracolo. Largou a mulher pra ver os moleques de perto. Seu colega de banda se aproxima: “damn, let´s drink”. Resposta: “I´ll just stay a little longer”. Fresco é o caralho. Emo não deve sacar esse tipo de coisa, mas aquilo era rock´n´roll. A poucas semanas de embarcar rumo ao Texas pra tocar no Festival SXSW, os moleques sub-21 da Vinil atiravam com munição pesada a lição de casa entre um comentário sem-noção e outro de Andro: “Quem já fez cocô?”, “vocês viram minhas botas? Meu pai me deu”. Americanizado? Como o próprio costuma dizer, já vivemos nos Estados Unidos virtual, baby.

Os donnuts, no entanto, podiam esperar. Com pinta de poeta lésbica da Rua Augusta, a frontlady Niela comandava os moleques doidos da Gloom (GO). Sady Menescal, que tinha acabado de chegar com o resto da Minibox, gamou de cara.  “É a segunda vez que ele se apaixona hoje”, dizendo Jj.  “Isso, porque nem tá no metrô de são Paulo”, cutuco. Sady resmunga: “Avril Lavigne, isso”. Mamãe já dizia, quem desdenha quer comprar. Inda por cima se dança com a música – ska com um quê da portuguesa Drugstore mais 60´s clássico e Beatles fase Abbey Road, fora uma pitada de Chico em Saltimbancos. Ah, sim. Tudo isso na levada de uma dupla de metais, que púutaquiospariul… viva o cerrado. Miro Sady – calado. E penso no quanto pesa um peso-pesado. Pra quem quase não pôde ir, a responsabilidade de tocar transcendia o palco.

Quem é da terra, por outro lado, carrega numa nice a responsabilidade de tocar mesmo que sozinho. Ebinho Cardoso (MT) perdeu seu trio pelo caminho e deixou todo mundo quietinho na platéia. Toca bem seu baixo de cinco cordas, o moço… mas não é o mais indicado prum festival do gênero. Como se me desse uma bofetada na cara, o Rei Momo subiu logo em seguida e deu a letra: “o carnaval de Cuiabá é multicultural”. Ok. My fault. Só que o povo queria rock. E Valdez (DF) atendeu à voz do demo. Com pegada grunge e levada Hives, ninguém chegou a uma conclusão quanto à semântica dos caras. “Nossa musica é um blues rock”, definiu o vocalista – de fato, John Spencer selado. Mas a pendenga persistia: “Esse cara é mais fã de Queens of the Stone Age do que eu”, suspirava Andro. Influências às cucuias, importava era que, mesmo com toda a distorção testemunhada pelo público, faltava ainda uma guitarra – tinha dado pau na caixa. O que me obriga a reiterar, coçando os bigodes: viva o maldito cerrado.

Mas se Deus está com eles, quem há de ir contra? God save Aberdeen, momma. No backstage, a Minibox Lunar (AP) se preparava, cada um a seu modo, pra subir no palco. Jj amarrava os cadarços de seus coturnos (escondidos sob a manta indiana) enquanto Alexandre lhe fazia massagem nas costas – toda habilidade com as mãos prum guitarrista é pouca. Helô Quintas e Otto Ramos se protegiam numa quina escura, quase como se orando em silêncio. Sady tomava ar do lado de fora e Taiguara… bem. Tai já estava na bateria fazia tempo.

gritosadyTalvez, tanto tempo quanto eu havia esperado pra ver a Mini-Mini tocando de cima. Cinco meses tinham se passado desde a última e única vez.  Em cinco meses, a terra dá aproximadamente cento e cinqüenta voltas em torno de si. Do espaço, dependendo da distância, pode ser ainda mais. Em cinco meses, muita coisa muda. Pra pior ou, como no caso deles, pruma bem melhor. Em cinco meses, Otto conseguiu orquestrar o grupo e construir arranjos maduros, fechados. Alexandre carregou mais peso à guitarra. Em cinco meses, a Minibox Lunar ficou nos trinques pra enfrentar o mundo. Começar por Cuiabá estava de bom tamanho, though.

Com seus olhos Maysa, alma Baby Consuelo e timbre Nara Leão, Helô se apresentou pro combate qual uma pomba-gira, toda iluminada. Jj mantinha seu semblante blasé, encarnando um duo entre Dolores O´Riordan e Patti Smith. As duas igualmente adoráveis, porém, cantando a uma só voz o drunk folk “Despertador”, ao tempo em que Otto fazia as vezes de equilibrista ébrio em suas teclas, pianinho. “E já que é carnaval, uma marchinha”, manda Helô, emendando no quase afoxé “Amarelasse”. E já que é do Norte, um brega – s´il vous plaît. Prontamente, mandam “Discos do Odair” (bem mais que um brega, uma releitura do clássico “Vapor Barato”).

O show podia ter acabado ali. O soco no estômago estaria dado. As borboletas já teriam voado goela afora. Restaria tão-somente a carcaça e um suspiro após o último trago. Não seria o fim, no entanto, se não acabasse de uma vez, ali mesmo. “Onde andará você?”, perguntava-se ao microfone em “Gregor Samsa”. Fui me encontrar numa peça encenada na quarta série, quando interpretei Visconde de Sabugosa e, ao pular em cima de uma mesa, deixei cair os binóculos que nela estavam. Como se precisasse deles pra continuar o ato e desconcertado demais pra catá-los no chão, improvisei duas lupas com as mãos. Fui me encontrar em cima do palco, na imagem de Jj catando seu microfone do chão e improvisando com seu corpo o pedestal que havia deixado cair. “Joaninhas espalham bolinhas pelo ar / confetes e serpentinas / insetos engraçados me emprestam suas asas / mas só você é quem sabe voar”. É nos tropeços que se constrói a identidade de uma banda.

gritopsyAssim como é nos tropeços que construímos nossa própria identidade. Por metade de meus vinte e sete anos, esperei ver meu primeiro show internacional. Várias foram as oportunidades, mas ou estava bêbado demais ou já dormindo ou trabalhando ou numa cama de hospital. Mato Grosso me deu de brinde o que tanto queria. Cenobites, direto da Holanda. E, porra, psychobilly dos infernos de Hitler, com direito a baixo acústico pra socar no cu do Momo. O Clube Feminino foi abaixo. Quanto a mim… dei as costas na quarta música e voltei pra área onde a baixocalão estava expondo.

Passava das quatro no horário local e quase amanhecia em meu relógio biológico. Por mais que tentasse esboçar palavra que fosse com Bárbara, não conseguia sequer agradecer pela força na exposição depois de umas quarenta horas em claro. Catei os desenhos e desapareci no mundo, vendo o sol raiar da rua. Caminhando sem rumo, encontrei dois sofás jogados na calçada, de frente pruma casa abandonada. Pensei seriamente em capotar por ali mesmo. Mas avistei, logo no outro quarteirão, um neon que indicava pernoite (sic) a quarenta pilas. Dormi até as quatro da tarde seguinte.

Já não se fazem beatniks como nos velhos tempos.

ONE LAST BEER IN HELL

Correria pré-segunda noite de festival. Tinha menos de três horas pra preparar a exposição virtual da baixocalão. Sem um computador ligado ao datashow, o arquivo preparado no PowerPoint de nada me valia. Teria de salvar novamente imagem por imagem, jogá-las todas no Movie Maker e me coçar pra aprender na marra a fazer o arquivo rodar num aparelho de DVD – tosco como só o diabo gosta, PC pra mim é editor de texto deluxe e olhe lá. With a little help from my friend Gustavo Godinho, via sms – and the new ones, os cubistas Thiago Dezan, Dríade Aguiar e Caju Medeiros dando o caminho logístico das pedras, um jeito não tardaria a aparecer. Longe de mim desapontá-los e meu recém-depenado bolso. A distância pra que isso acabasse acontecendo, porém, encurtava-se a cada nova tentativa em vão de baixar um programa que desse conta da missão.

Entre um download e outro, folheava Kerouac e entornava uma gelada no escritório do Clube Feminino pra compensar os shows que estava perdendo no andar de cima. Passadas duas horas desde o início da programação, Lothus (DF) e Di Marco (RO) já tinham deixado sua marca no palco. Pude acompanhar dois minutos da Kallima (MT), o que quase me fez prometer não levar sequer um lápis ao próximo festival que fosse, de tão invejável que era o clima entre os que estavam lá simplesmente pra curtir – no me gusta essa culpa cristã no coração. Desci as escadas de cabeça baixa, rangendo os dentes e decidido a tentar uma última vez.

“(…) the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes ´Awww!´. What did they call such young people in Goethe´s Germany?”.

Vinte e cinco minutos pro arquivo estar ao alcance de dois cliques, penso ver um hobbit passando pelas janelas da sala onde estava, atravessando o corredor, cruzando a porta e vindo parar diante de mim.  E penso cá com meus botões conhecer aquele hobbit de algum lugar. Só que hobbits, bem sabia, não existiam. Nem existem.  Penso, então, que devia ter escutado o que mamãe dizia (cuidado pra não colocarem roupinol na tua bebida, hein, meu filho… fica esperto!), mas penso logo em seguida que roupinol não deve dar alucinação e nem com sono eu estava. Pra não ter erro, achei por bem estabelecer contato. “Tá perdido?”.

Não estava. Nem era hobbit ou alucinação. Aos dez anos, o irmão mais novo dos Dezan fugia do Juizado de Menores. “Mas meus pais estão aí, será que tem problema?”. Foi o moleque ficar na bilheteria cinco minutos enquanto papai e mamãe Dezan davam uma força no andar de cima, pros agentes aparecerem. “Fiquei encolhido atrás da Caju, nem me viram”. Pára a festa. Tensão. “Lá nos fundos, tem um banheiro. Corre lá”. Acobertava um fugitivo. Ganhei tempo, por outro lado, pra gravar a apresentação a tempo da Linha Dura (MT), de última hora na escalação, estrear a exposição virtual na levada dos riffs entrecortando o vocal quebrado da batida hip hop – melhor, impossível. Ainda que com a marca d´água “Trail Version” no telão. Nem toda arca é de Noé em primeiro dilúvio.

Passada a tempestade, pude finalmente pedir pinico e reencontrar Sady e Jj e recebermos de braços (dedos, lábios, correntes) abertos o arco-íris. Fusion do messianismo contracultural dos anos 70, moda de viola, ala punk da Jovem Guarda e ecos de Zé Ramalho, os tiozões da Vadaluz (MT) eram praticamente uma versão Minibox Lunar old school. O trio de comentaristas entrava de novo em ação. Sady me puxa: “Ei, ei, é a Mini-Mini velha, só tá faltando a Helô”. Resposta: “Na verdade, falta Jj. Morreu antes da fama”. Ela: “Aos vinte e sete”. A bateria: tchurupá! Antes ficarmos calados e prestarmos atenção na prata da casa emendando um country foda de saloon e eita noise. Ríamos na cumplicidade dos olhares que miravam o futuro num misto de deslocamento e pânico. As cortinas começavam a derreter. Escoamos cada qual prum lado. Good night, Cinderella.

Acabei me refazendo numa poça de frente pro palco. Talvez, na esperança de que a lenda procedesse e a vacina do sapo que deu nome à banda Filomedusa (AC) fosse mesmo capaz de afastar o azar e a falta de coragem. Nem porra. Ali, sozinho, analisando cada singularidade nos traços indígenas com franja Ronnie Von e pose Charlie Watts do batera Thiago Melo, no jeitão Ney Hugo do Planalto de tocar o baixo do Presidente do Fórum Nacional dos Secretários de Cultura, Daniel Zen, e nos timbres retrôs da guitarra de Saulinho, versão Joel Melo (da paraense Suzana Flag) desbotado, ali, sozinho, não tive muita opção senão me deixar levar pelos wormholes do esquecimento, de carona na voz de Carol Freitas, voando baixo, “num rasante, minha dor”.

“Pra mais ou pra menos? Meio-dia em Brasília, onze horas lá?”, Tai dá um chega pra lá em meu amigo imaginário, encasquetado com um comentário de Carol sobre o fuso-horário em Rio Branco. Olho pro Taiguara e vejo o Ringo. Pintou o quadro do Braço Norte do Circuito: ainda meio perdido, desnorteado, não se entendendo lá muito bem, mas correndo atrás e derretendo os miolos pra mudar as coisas. Aprendendo com quem está na labuta faz mais tempo.

gritopovo“Essa é a matriz!”. Baiano, da local Anhangá, berrava ao microfone. A penúltima banda da noite e que, com seu discurso social martelado num crossover à la Madame Saatan com Van Diesel nos vocais, ensinou o bê-á-bá (eat me) pra molecada e pra muito marmanjo de bobs ali e por aí também. “Quero ver roda punk!” – e a roda girou. Essa é a motriz. A que supera modismos e crises econômicas e leva os festivais adiante. No fim das contas, quando os quinze minutos de fama se esvaírem, restarão os seqüelas e portas-bandeira. É pra eles que uma cadeia está sendo consolidada.  “Hora de mensagem subliminar, nem tudo é real nessa porra”. Ouço do cara ao lado um “mensagem subliminar?” e gargalhadas. Dou de ombros. Nem tudo pode ser levado tão a sério no rock. A penúltima cerveja.

“There´s always more, a little further – it never ends. (…) They writhed and twisted and blew. Every now and then a clear harmonic cry gave new suggestions of a tune that would someday be the only tune in the world and would raise men´s souls to joy. They found it, they lost, they wrestled for it, they found it again, the laughed, they moaned”.

“Caco, Caco, Sady tá passando mal”. No caminho pra kombi, Bruno Folha, baixista da Vinil Laranja, foi me contando, enquanto comia seu cone de pizza (na boca de todo o festival, aliás, por cinco pilas a dose), sobre as aventuras de seu par (versão Gordo e Magro amazon-indie), desmaiado nos bancos de trás e rodando pela cidade como bibelô de luxo na carruagem de  Carol Freitas e Ludov (SP), banda que fecharia a noite. Como se Sady estivesse apenas jogando xadrez com a Morte, numa badtrip de rotina, usei uma camiseta da Minibox Lunar como cobertor pra cortar a liga-torta do frio e, depois de algumas palavras de consolo, voltei pra dentro.

Não durei muito por lá. Acompanho a Ludov desde que eram Maybees apenas e nada mais – conhecia de cor a melancolia da voz de Vanessa Krongold. É música que toca na MTV e te faz lembrar o dia-a-dia de algum lugar no passado e faz bater a sensação de que, sim, chegamos. Só não sabemos bem onde. E, se chegou, time to go. Na saída, Mauro Motoki contava histórias de como tinha conhecido o povo da Vanguart e, agora, “o Bruno, do Macaco Bong, que conheci lá atrás e de quem sou fã. Foi bom demais”. Kayapy, no meio da calangada, cumprimentava os que um dia conheceram “Helinho” (Flanders). E som na caixa. Como se tocadas na rádio fossem, que continuassem assim. Pano de fundo. Voltei pra fora.

O festival chegava ao fim – ao menos, pra mim. Tinha de estar em Belém antes da Quarta-feira de Cinzas e a balança time/money não ajudava pra que pudesse sequer pensar em ficar pra ver um dos melhores espetáculos do Circuito, Daniel Belleza e os Corações em Fúria (SP), no dia seguinte, muito menos pra acompanhar o Enterro dos Ossos no fim da semana que começava naquele domingo de carnaval. Fora o peso nas costas e consciência, que me dava o aspecto de um velho aos vinte e sete anos. Like a Drama Queen, carregava o fardo de fazer parte da primeira geração adulta pós-Cobain no meio da molecada de dezesseis, vinte. gritokayapiComo se os minutos na profecia de Warhol seguissem o modelo bíblico e valessem, na verdade, os quinze anos entre uma geração e outra.

“Bora chegar lá e falar ‘Ê, Capilote, dá uns Cubo Card aê’”, Folha dava idéia a Sady, recém-retornado a Cuiabá. Um bom retrato do que pode vir. A melhor maneira de prever o futuro, já diria o Sr. Orkut, é inventar. Em 2007, Vanguart. Macaco Bong em 2008. Sem banda madura o suficiente pra dar continuidade à novíssima tradição pantaneira, está aberta a bolsa de apostas pra ver quem será a menina dos olhos de Capilé em 2009.

Tivesse a chance, uma única palavra, teria ficado. O silêncio tratou de catar minha mochila e de me dar um chute pra fora dali o quanto antes, sem despedidas nem arrependimentos. Sady me encarava como, um dia, talvez Kerouac tivesse encarado Cassady.

“Okay, old Dean, I´ll say nothing”.

E tomei o rumo da roça, levando na garganta o sabor amargo de um último gole e a melodia de uma canção ainda não escrita, que dizia mais ou menos o seguinte:

os ídolos passam / a vida continua

.:.

(originalmente publicado na Rockpress em março de 2009)

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Das coisas que (não) vi e (não) vivi em Macapá

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Aeroporto Internacional Val-de-Caes. Belém do Pará. Onze e meia da noite. Duas horas antes do vôo e já estávamos na fila do check-in, eu e Saul Smith, guitarrista da Vinil Laranja – fomos de carona com Andro, também da banda, que estava com o carro emprestado da mãe e tinha que entregá-lo antes da meia-noite, quando ela sairia pra enfiar o pé na abóbora. Sem nada mais pra fazer até embarcar, resolvemos continuar a beber. Alguns passos adiante e, grata surpresa, encontramos Nicolau Amador, presidente da associação paraoara Pró-Rock, guitarrista e produtor das bandas Norman Bates e Suzana Flag. E camarada o bastante pra nos pagar a conta. Duas doses de cana, mais uns quatro chopps – só eu. Não conseguia conter a emoção de estar indo à primeira edição do Festival Quebramar de Música Independente, levado a cabo pelo Coletivo Palafita. Tanto quem pagou, quanto quem bebeu.

Macapá. Reza a lenda mais ao sul, a capital do feudo administrativo de Sarney tem só um edifício com mais de cinco andares. Marco zero. Pra muita gente. E fim da linha pra outros tantos. Quando não se tem (ou não se resta) nada a fazer, sobra energia. Aí, não tem quem segure. A massa, quando acorda de um estado prolongado de torpor, é incontrolável – algum behaviourista já deve ter dito coisa parecida, de forma um pouco mais rebuscada. O bom e velho “cabeça vazia, oficina do diabo”.

Da minha, tinha tomado conta fazia tempo. Desistir, porém, jamais. Um, dois, um, dois. Sincroniza. Nem precisa erguer a cabeça. Só anda. O mais difícil, que era chegar, estava feito. Dali pra frente, moleza. Tem mais é que arriscar. Às vezes, babe, o fim é apenas o começo. Certo é que, da banda alagoana Mopho, que chegou conosco, não senti nem o cheiro. Nem deles, nem dos Bongs também ali. Já o peso de Sady Pimenta, da hostess Mini Box Lunar, impossível não sentir. Direto no cangote. Nocaute. Joga no carro. Diones Correia, moleque doido do Coletivo, e Cid “meu sósia” ajudaram na missão. Dormi a viagem toda, acordando de curva em curva só pra falar merda. Não demorou, chegamos. Enfim, em casa. No caso, a do Sady.

Acordei com o futum de macho empestando o quarto de janelas fechadas pra sustentar a rede improvisada em que eu dormia. Não bastassem os irmãos Pimenta (na real, Pantoja), dois galalaus com quem já tinha me acostumado nas duas outras vezes em Macapá pra acompanhar as prévias do festival, agora também tinha um negão suando ali. Foi quem tentei acordar primeiro. Mas Saul não acordava nem na base da porrada. O jeito foi me contentar com a megalomania de Sady, siempre alerta, me narrando os causos da noite anterior e como eu cheguei já abraçando uma garrafa de vodka e me lamentei até cair por ter perdido o Tanto Faz, do Reinaldo Moraes, numa tentativa frustrada de leitura durante o vôo. OK, você venceu. Fui tomar um banho.

No box, quase escorrego e bato a cabeça. Putamerda, o Mautner não vem mais. Lembrei de supetão que alguém tinha me soprado a notícia na noite passada. Quebrou a perna, não pôde embarcar. Coisa assim. Pois foi o Deus do Tempo e da Morte quem profetizou o Kaos. “Break a lega, moddafockas”. Recado dado. E compreendido. Copiado. Farinha. Saí do chuveiro afoito.

“Bora logo pra Unifap, porra”.

Engolimos umas salsichas e lá fomos com o sol das duas no lombo rumo à Universidade Federal do Amapá, jogando conversa fora. Sady e Saul. Eu, calado, contendo os mínimos movimentos do rosto pra ver se conseguia estancar o suor. Isso, no começo. Uma hora depois, era enjôo mesmo. O fedor era dos bons quando, indo por um atalho providencial que Sady nos arranjou, passamos pela Alameda das Moscas. Contei umas quinze ossadas de cachorros estraçalhados fazia uns dias e algumas dezenas de urubus prostrados na cerca ao longo da via, fazendo a digestão enquanto o sol não baixava um pouco pro banquete recomeçar. A impressão era de que aquelas carcaças ressuscitariam a qualquer momento e nos arrastariam pelas canelas pra debaixo da terra. Mas continuaram imóveis e seguimos em frente.

Tivemos alguma dificuldade em reconhecer o palco principal quando chegamos à universidade. Talvez porque, faltando cinco horas pro espetáculo começar, ele ainda estivesse no chão. “Os caras vieram montar de manhã, mas os seguranças barraram o caminhão na porta. Já tá tudo resolvido, devem estar chegando”, fomos informados no Quartel General por Otto Ramos, da Mini Box Lunar e da stereovitrola e do Palafita. “Enquanto isso, Sady, fica tomando conta dos equipamentos que estão lá”. Positivo, operante. Como se Sady tivesse emergências a resolver na internet, incumbiu-me de ir sozinho.

Duas horas de espera e uma recusa de convite pra tomar uns gorós feito pelo diretor de palco importado de Belém, Edvaldo “Azul” Souza, o caminhão chegou. O palco estaria erguido por volta das dez da noite. O que seriam três horas de atraso prum festival em sua primeira edição, afinal? Caos. Certeza que estava talhada nas expressões de todos. Nada mais a fazer, senão esperar. E aproveitar a programação paralela – coletiva de imprensa, workshops (aqueles em que os ministrantes compareceram), exposição de fotos e pinturas. Fugir do destino pra quê? A primeira latinha do dia foi aberta. Não sei se por causa da segunda e da terceira e das que se seguiram, sei que o tempo até que passou rápido. Quando resolvi olhar pro lado, já eram nove horas, o gramado já estava cheio de gente e o palco jazia montado – antes do previsto. Let the show begin.

Após o primeiro riff, afinal, quem se importa com atrasos? “Eu não ligo”, berrava o vocalista da local Relles, from the muddy banks of Wishkah. Nem nenhum dos que tinham entrado de graça e batiam cabeça na apresentação seguinte, da Klethus, que mostrou por A mais B que Roraima, white metal e mulher na guitarra combinam, sim senhor. “Essa doida agita, velho”, comentou um passante sobre Ellen Carmaine, que subiu às pressas com sua banda pra tocar no lugar de Roni Morais, às voltas com o atraso de sua esposa e não tendo mais ninguém pra tomar conta do filho de colo. Mas eis que a digníssima Senhora Morais enfim chegou e Roni pôde embalar o sono de seu rebento com sua música popular brasileira mesclada ao que de melhor a terra oferece. Mas sem regionalismos pilantras. “Rapaz, curti o som desse cara. Melhor que Nilson Chaves”, confessou-me, atrás do palco, um Azul satisfeito com o papel que desempenhava ali.

FIM DE NOITE: O QUASE QUEBRA-QUEBRA

Imprevisto nenhum conseguia tirar a satisfação de ver que tudo corria bem, no fim das contas. O problema é que o pontapé inicial mal havia sido dado e uma noite toda estava por vir. Estávamos no quarto show, com a amapaense Dezoito21 passeando por seus arranjos progressivos à la Gessinger – justiça seja feita, melhor do que qualquer coisa que os Engenheiros do Hawaii gravassem hoje em dia – quando o pau da barraca foi chutado de vez. Os portões da Unifap estavam fechados. Algumas dezenas de pessoas do lado de fora. Onze e quinze da noite e ninguém mais podia entrar – nem sair, seguindo a lógica. Novamente eles: os seguranças que, passando por cima de uma ordem escrita e assinada pela Pró-Reitoria, resolveram acabar com a festa. Simples assim. Vai entender. Maldito Mautner. Pensou em tudo, o sacana.

É claro que abandonei a música e corri pros braços da cagada. Tão logo cheguei, um metaleiro que me acompanhara até lá em passos tão largos quanto os meus urrou meia dúzia de palavras encolerizadas e cruzou os portões, ameaçando em código que voltaria. Não demorou. E a seu “liberdade ao roooock!!!”, seguiu-se um “pu-la, pu-la, pu-la!!!”. Aquilo, sim, era pra entrar na história. “Vamo arrebentar essa porra que eu quero ver”. Quem tinha arma, estava com a mão no coldre. “Fica na posição, que vai rolar tiro”. Babado quente. Logo virou o assunto entre os indignados do lado de dentro. Enquanto isso, bem pr´além dos portões… a ladainha continuava. E pula, não pula. Pula. Não pula. Pula, não. Pulou. Ninguém o seguiu. Saiu correndo pelo campus, fugindo de ninguém, direto pros braços do rock.

Penso: “Vou só comprar uma cerveja e já volto”. Fui. Espera. Caralho. O som parou, porra. Resumo da história: a mulher do cara da mesa de som tinha sido barrada no portão e ele resolveu se rebelar, deu um foda-se e desligou o som. “Já curti mesmo. Já bebi todas, já fumei todas. Foda-se vocês (sic)”, ilustrou bem um dos primeiros desertores a passar por mim a caminho da rua. Havia de tudo na multidão. “Vocês não merecem isso. O que foi essa arrumação? Cadê meu crachá? Peguem suas vassouras elétricas e voem, bruxos e bruxas”, saiu pregando uma professora tropicalista da universidade.

Enquanto eu brincava de Repórter Esso, Otto corria atrás de uma solução ao lado de Heluana Quintas e Paulo Zab. Em cima do palco, banda alguma. Apenas o anfitrião Bio insuflando a rapeize a arrebentar os portões. Eu, bebendo e observando o fluxo de gente que fazia o percurso contrário ao pregado no microfone. Tudo resolvido, uma hora depois, e a liberação da entrada finalmente concedida, já não havia mais viva alma na Unifap. Nem dentro, nem fora. O coletivo se reunia pra discutir as ações do dia seguinte no intuito de antecipar a solução de qualquer eventual contratempo no segundo dia. Se é verdade que muito se aprende num primeiro festival, evitando as mesmas dores de cabeça numa segunda edição, a premissa valeu pro Palafita desde o primeiro dia.

SEGUNDO DIA – FAMI: A CONTRA-RESISTÊNCIA

“Onde tu te meteu ontem, careca fiadasputa?”, Sady perguntava com a mais cínica das expressões. “Chegamos, tu não disse nada, pegou a garrafa de vodka, saiu pela porta e sumiu por umas boas duas ou três horas. Voltou, nem resmungou, deitou e dormiu”. Ainda sem mais palavras, levantei-me e peguei o caminho da rua. Dessa vez, consciente de que estava, novamente, sozinho.

Não consegui chegar a tempo, por pura falta de comunicação entre as partes, na reunião inaugural do Fórum Amazônico de Música Independente. O FAMI. Até teria chegado. Se não tivesse ido parar no outro lado da cidade, na Unifap. Debaixo do mesmo sol da porra do dia anterior, que seguia tostando as carcaças espalhadas pela Alameda das Moscas. Chego. Cheio de ninguém, a Unifap. Resolvo sacar meu celular. Todos estavam no hotel, a beira-rio. A reunião já ia começar.

“Pega uma moto”.

Voltar andando é que eu não ia. Atravessei a passarela e fui pro ponto de ônibus do outro lado da rua. Tomaria o que chegasse primeiro. Só que não chegou nenhum. O tempo passava e nem sinal de uma condução. Voltar atrás é sempre uma opção a ser levada em consideração. Voltar a pé, no caso, era a única. E lá fui outra vez debaixo do sol. Metade do caminho, encontro uma moto-táxi. Alegria. Das de pobre. Mal durou o tempo do percurso até o hotel e já se foi ao descobrir que a reunião tinha acabado. Martelo batido. FAMI gerado.

A lista eletrônica criada a partir da reunião inaugural, porém, conseguiu ilustrar bem os mecanismos dessa máquina esquecida no meio da floresta amazônica. Parece ser ulterior aos que aqui chegaram. Diálogo bom é monólogo com platéia. E ai de quem piar. Briga-se por qualquer coisa (vide as quatro prévias do QuebraMar, todas acabando em quebra-pau). O que não quer dizer que haja vencedores. Prevalece o espírito auto-indulgente que leva a uma auto-estima baixíssima e o consequente sentimento de rancor. Qualquer boa intenção que ameace surgir pelas plagas de cá é prontamente arrancada do pé por picuinhas menores. Em outras palavras: rancor emburrece.

Daí a cautela na hora de afirmar qualquer coisa em relação à região. Fazendo um paralelo com a cena paraense de 10 anos atrás, de onde basicamente tirei a inspiração pra pintar o quadro do parágrafo anterior, chegamos a uma importante diferença: comunicação. Se antes todos se matavam e ficava por isso mesmo, tudo jogado pra debaixo do tapete sem que ninguém apurasse nada, hoje a ferida é mais exposta. Todos os olhos se voltam pra região. Todos os ouvidos querem escutar o que está sendo arranjado aqui. Há braços em bom número desejando trabalhar por uma causa maior, algo que valha a energia gasta em troca de remuneração alguma. Ao tempo em que há ferramentas que possibilitam a mobilização e organização dos agentes amazônicos, mas há os que preferem subutilizar estas ferramentas ao transformarem-nas em porretes. Resta saber se o canto de um índio isolado irá prejudicar as relações de tribos inteiras e, assim sendo, mais índios se tornarão desertores e sairão mundo afora sozinhos, com o talento guardado no bolso.

Mas quem vai imaginar um furacão desses na euforia de uma reunião inaugural? No meio de um festival, então, fica ainda mais difícil não se empolgar com o feito, do qual não há como se tirar o mérito – antes exterminar obstáculos que insistem em impedir que ele prossiga com sua proposta original. Foi com esse sentimento de “beleza, nada de dever cumprido por enquanto, mas que tá andando, isso tá” que todos partiram rumo à segunda noite de festival. E que noite.

Sete em ponto e a 12voltz estava em cima do palco. Mais uma boa revelação de Macapá. A certa altura, entre um timbre Hermano e outro, o cabo da guitarra se soltou. Ponto pra cozinha, que mandou muito bem no improviso. Fica a dica: mete um backing vocal e tira os bonés dos caras, que fica nos trinques. Pena que tocaram pra ninguém. Talvez traumatizados pela noite anterior, o público tardou em chegar no segundo. Mas chegou. Não a tempo de ouvir o testemunho do vocalista da white metal só Q-boa Profética (“ouço rock desde os 12 anos, é muito bom tocar rock”) ou os mods paraenses da Clube de Vanguarda Celestial, que literalmente atravessaram o rio a barco pra tocar no festival – quase não chegam a tempo.

Com a local SPS12 e seu hardcore malhação, porém, a história foi outra. Já havia quem pular com o peso dos moleques. E pularam bonito. E, dobradinhas AmaPará, continuaram pulando com Aeroplano e o show que deixou muito marmanjo veterano do rock de queixo caído. Perseverando na receita que dava certo, a dobradinha seguiu com o metal suckmydickandieano da Jolly Joker (“tu viu como eles são machistas?”, indagava uma amiga à outra depois do show) e a psicodelia shoegazer da stereovitrola, cujo ponto alto foi “a última canção, Canção para Syd barret, com o baixo distorcido e viagens de guitarra e teclado no meio da música”. Marinho Pereira.

Só com um cara da banda pra dizer o que rolou dali pra frente. Não me lembro de muita coisa – ou o que lembro não tem como ser levado tão a sério assim, vide a pancada na cabeça que tomei de um cata-vento colorido, daqueles gigantes. Resultado: apresentação da paraense Turbo – não vi. Mas ouvi os comentários no dia seguinte e não podiam ter sido melhores. Camillo Royale virou ídolo pelas plagas de lá. Idolatria que a local Mini Box Lunar, por sua vez, apenas consolidou. Merece um parágrafo à parte. O assunto é sério. Tão sério que prefiro deixar pro parágrafo que antecederá o parágrafo final – ou quase isso.

Este parágrafo, portanto, deixo pra confessar ainda que, sim, perdi o retorno triunfal da alagoana Mopho aos palcos e que só acordei pro show que fechou a noite e o festival, dos mato-grossenses da Macaco Bong, e que puta espetáculo que eles deram. De ficar me perguntando se eu tinha acordado mesmo ou se tinha embarcado de vez num surto hipnótico. Num surto tamanho que me fez acreditar novamente em utopias e quebradeiras, ao tempo em que me tornava o maior dos céticos. Bruno Kayapy de joelhos dando boa noite com sua guitarra.

Jj, da Mini Box Lunar, de joelhos dando tudo de si, sangue e suor e lágrimas – e chegamos ao parágrafo de assunto tão sério. Sério porque podia ter sido o melhor show da noite, mesclando tudo que fora apresentado até então: do popular à lisergia, da melodia à distorção. Sério porque se trata de uma banda em que os músicos são também as principais cabeças por trás do Palafita e, consequentemente, do QuebraMar. Sério porque os mini-mini subiram ao palco sabendo que teriam de abrir mão de seu repertório em troca de apenas cinco músicas por conta de uma causa maior, em prol do coletivo. Sério porque dá corda pra questões do naipe “que porra de distância é essa que faz uma banda tão fodida de boa não ser vista, apreciada e reconhecida?!”. Sério porque traz questões que podem levar a questões bem mais complexas.

Por maior que Belém seja, acaba se afundando exatamente na soberba da certeza de ser o tesouro perdido que pirata algum foi ainda capaz de encontrar. Macapá compensa o tamanho pela capacidade de ouvir e aprender com quem já fez e fez direito. O que acaba se revertendo numa quantidade maior de bandas, sim, no caso da primeira, mas numa quase equivalência entre as duas no quesito qualidade. As poucas bandas de Macapá parecem saber o caminho das pedras. Se precisarem cruzar o rio pra seguir a trilha, já provaram não ter medo de tormenta.

Viver num eterno caos~cosmos~caos. Quem fará o papel de yin e quem fará o papel de yang, eis a grande questão. De minha parte, sei das minhas andanças e tratei de não tomar conhecimento do sumiço de Sady e de Saul. Missão cumprida, subi numa moto-táxi e embarquei no avião de volta, sem olhar pra trás.

“E fogo na pipoca deles”.

God bless Aberdeen.

(texto originalmente escrito e publicado em dezembro de 2008 no site da revista Dynamite)

(foto de Renato Reis)

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sinos de belém

O Globo - Segundo Caderno - Capa - 05.08.12

cá estamos em matéria muito boa de leonardo lichote sobre a atual cena paraense pr’o globo.

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