“Usa a buceta a favor do processo” (sic)

grandes_labios

A voz de comando era recorrente nas reuniões da banda, em Macapá, segundo fonte que preferiu não se identificar. O processo? Solidificar a participação dos caciques do Coletivo Palafita nos andamentos dos trabalhos em escala nacional do Fora do Eixo. A dona da boceta? Procuradíssima, preferiu sair da banda, do processo; foi uma das primeiras a abandonar a barca (ou sair remando pra bem longe), a “rachar” com o coletivo e todo o movimento. A história virou lenda e acabou sendo relegada aos anais obscuros e trancafiados a sete chaves da novíssima música popular brasileira. A banda, então mui bem cotada no mercado fonográfico e uma das principais apostas do FDE após a ruptura com a Vanguart e o instrumentalismo indigesto às FM’s da Macaco Bong, ambas cuiabanas e lançadas em anos subsequentes, acabou não saindo do estúdio até hoje, passados quatro anos.

Também, pudera. Em nome do processo, a música era o que menos importava. Enquanto qualquer banda que se diga independente sonha com a possibilidade de tocar em qualquer outro estado (Amapá, Alagoas, Acre que seja, pra ficar nos que começam com a letra A) nossa banda-personagem tinha dez, vinte, trinta convites pra shows por todo o país, mas preferia permanecer em Casa e se dava ao luxo de simplesmente recusar os convites. “Show bom era show estratégico” — politicamente, por supuesto. E é sempre bom lembrar: não existe amor na política. Na política, vale tudo — menos amor. Nem amor com porrada pode. Se for só porrada até vale. Porrada em mulher, por que não? Mas pera lá. Só se for de gente do FDE em gente do FDE. Senão, é vandalismo.

Ao tempo em que escrevo este texto, os caciques do Fora do Eixo estão soltando o verbo nas mídias sociais (publicamente ou em pvt). Tem que denunciar o Soldado Torres da PM/RJ, que bateu em uma manifestante! Justo, muito justo. Tinha mais é que dar uma coça de volta no cidadão. Mas por que dois pesos, duas medidas? Por que o Soldado não pode bater em uma mulher, em uma manifestante (!!!), e alguém do Fora do Eixo, um cacique do Fora do Eixo, pode? Por que fizeram tanta questão de jogar pra baixo do tapete o caso recorrente de violência contra uma das mulheres que faziam parte da Casa Fora do Eixo Amapá? Incluindo aí uma suposta cadeirada em suas costas em pleno Festival Quebramar desferida pelo coordenador da Casa, Otto Ramos, fato específico que teria sido testemunhado por vários membros do próprio coletivo e, na época, denunciado na rede (claro que não houve BO; o casal continua ainda hoje na casa, embora não mais como um casal). Denunciantes estes que, prontamente, foram taxados de malucos, sem noção, fora de órbita, sumariamente desqualificados em uma enxurrada de comentários memetizados por membros de coletivos país afora — ninguém (ou quase) de Macapá.

Ah, Macapá… tantas vezes escrevi sobre Macapá. Sobre o faroeste ímpar que era Macapá. E, hoje, novo bang-bang pelas plagas de lá. Não. Dessa vez, nada de aliciamento ou agressão. A lógica, tampouco, é das mais precisas. Tipicamente macapaense. Ora, se PM não pode bater em mulher e manifestante, mas cacique pode bater em mulher, logo cacique também pode denunciar manifestante que sai batendo e quebrando tudo por aí. Percebe? Confuso?

O “boato” (a testemunha acabou dando pra trás após ser ameaçada e desistiu de conversar com o repórter)  partiu de dentro da própria prefeitura: membros do Fora do Eixo, em Macapá, teriam cumprido seus papéis de cidadãos civilizados e entregue um envelope com as fotos dos “vândalos” que estavam nas manifestações ao senhor prefeito Clécio Luís. Que fofo, não?

Mas ninguém sabe de nada, é segredo. Ok? Assim como no início das manifestações do MBL ninguém sabia que um dos residentes da Casa Fora do Eixo Amazônia estava à frente das reuniões, um líder nato. Estavam todos lá, de Belém e Macapá e Manaus, empunhando bandeiras brancas, repetindo as palavras que ele proferia nos jograis, abrindo o próprio evento no Facebook, mas ninguém viu, ninguém ouviu nada. Quando o rapaz foi descoberto pelos demais manifestantes, que coisa: descobriu-se também outro infiltrado, com tanto poder de voz quanto o primeiro. Dessa vez, porém, o sanguessuga era da Juventude do PSDB. Mas ninguém viu, nem ouviu, nem sabia de nada. Ambos foram rechaçados e, com eles, as duas siglas que representavam. Duas semanas depois, qual não foi a surpresa: ninguém viu, nem sabia de nada. Claro. O FDE reapareceu nas reuniões com a seguinte alegação: “ele agiu por conta própria e foi limado da Casa”. Apenas mais um bode expiatório entre tantos “malucos sem noção” deixados pelo caminho. Ou que simplesmente resolveram abandonar a barca. Saíram remando…

E que caminho… resumão pra quem pegou o bote andando: antes do Fora do Eixo, existiam apenas os coletivos e suas respectivas redes em construção. Coletivos esses que defendiam, entre outros idealismos, o não pagamento de cachê em dinheiro pras bandas que tocavam em seus festivais (festival, afinal, é vitrine), receberiam em moeda solidária. Cubo Card, ring a bell?. Tudo em nome do fortalecimento da cena independente, então incipiente. Aí, surgiu o Fora do Eixo e tudo virou realidade. Começou em 2005 com quatro coletivos, quatro cidades, quatro regiões: Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR) — até hoje, não conseguiram “dominar” o Nordeste (faltam duas “unidades federativas”), diferente do que acontece nas quatro regiões de origem onde todos os estados têm sua representação.

Interessante notar o caso do Acre, em particular. Não levou nem sequer dois anos pra que, da noite pro dia, a cena independente ficasse em segundo plano tão logo Daniel Zen, então baixista da Filomedusa e uma das cabeças por trás do Coletivo Catraia, foi convidado por seu amigo de adolescência e então recém-eleito Governador do Acre, Binho Marques (PT), pra assumir a Secretaria de Cultura do Estado.

“Se eu não me engano, ele estava em Recife e o Governador ligou dizendo que queria que ele fosse o Secretário de Cultura. Ele disse que não queria porque ia desarticular toda a produção que ele tinha feito na cidade — o que de fato aconteceu: hoje, não tem mais festival, quase nem banda direito. O Pablo (Capilé) estava com ele e disse que ele não podia recusar”, conta uma nova fonte que, óbvio, também prefere não se identificar.

Dito e feito: não apenas aceitou, como levou as principais peças do Coletivo Catraia junto, que não demorou, conforme o próprio previra, a ruir. Levando consigo o Festival Varadouro, considerado um dos mais importantes e estratégicos na época (a exemplo do que aconteceu com o Calango, coincidentemente de Cuiabá). Coletivo, festival, pra que afinal quando se tem uma Secretaria de Cultura? Mas uma era pouco demais. Por que não juntar todas as Secretarias de Cultura logo de uma vez sob a asa do garoto prodígio? “Dá logo a presidência do Fórum Nacional dos Secretários de Cultura pro menino, pombas”. Imagino a conversa entre Tião Viana e o então Presidente Lula… meramente ilustrativa. Um ano depois de assumir a pasta no Acre, Zen virou Presidente do Fórum. O nome disso é competência, alguma dúvida? Tão competente, que não demorou até que a Secretaria de Cultura não fosse o bastante pra comportar tamanho talento. Resolveram trocar Zen de pasta. Da Cultura pra Educação.

“Secretaria de Educação é tipo brinde de bom trabalho”, filosofa nosso ilustre anônimo, apostando: “Zen, com certeza, será candidato à Presidência em alguns anos”. E Capilé, como não poderia deixar de ser, aposto minha caxumba, seu Ministro da Cultura.

Zen que, por sinal, é pré-candidato ao Senado pelo PT nas eleições de 2014 no Acre.

Mas, disso, ninguém sabe na Praça Rosa. Ninguém viu. Nem se fala mais no cara. O que poderiam dizer, afinal? Pura falácia. Coisa de maluco sem noção. De reaça fascista neonazista. Gente do bem, mesmo, é o povo do PSDB, que solta R$ 20 mil pro Fora do Eixo realizar o Grito Rock em Belém (I was there, kiddo). Ou da Juventude do PSDB, que se infiltra com a Juventude do FDE nas manifestações da capital paraense. Pessoal, parem com maldade. É claro que ninguém viu, nem soube de nada. Tampouco disse. O que poderiam dizer, afinal, não é mesmo?

Pois que digam o que seja. Prefiro ouvir o que Madô Lopez ou qualquer uma das milhares de mulheres que hoje vão às ruas na Marcha das Vadias teria a dizer sobre a ordem de comando horizontalíssima que dá título ao texto. Será que usaria a boceta a favor do processo? Será que admitiria levar porrada do companheiro em nome do processo?

Quem tem boceta que se cuide, portanto. Pois, via de regra, quem tem cu…

.:.

Um dos coordenadores da Casa Fora do Eixo Amazônia foi confrontado duas vezes sobre as questões expostas acima e se limitou a negar os fatos, apesar de afirmar ser “contra a administração de Macapá”.

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About caco ishak

deu pau no servidor da verbeat
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4 Responses to “Usa a buceta a favor do processo” (sic)

  1. Samyra says:

    Vixi…
    Pra mim é batata. Pra ter uma boa noção do entendimento coletivo de um grupo, é só saber como tratam as mulheres.
    Tenso.

  2. Guilherme daCunha says:

    Mulheres o caralho, estamos falando de pessoas que merecem respeito, homens e mulheres. Grande parte das palhaçadas q rolam hj estão ligadas a esse tipo de egoismo.

    • Catarina says:

      Egoísmo é o caralho.
      Esse texto trata de desrespeito e violência à mulheres. Então guarde o seu mimimi pra outra ocasião.

  3. Pingback: alícia no país dos milagres | ciao cretini

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