“Não dá pra simplesmente estacionar um barco no acostamento e esperar a tempestade passar”

Não sabia quando parti, mas minha meta sempre foi desacreditar de vez na humanidade. Um mais incauto perguntaria: e precisava sair do sofá pra isso? Fosse outro sofá, não. Não precisaria. O problema morava no cheiro do sofá. No cheiro do suor manchando o sofá. No suor do que um dia foi esse sofá e hoje não passa de memória olfativa. Na lembrança que ainda fazia de mim um crente em coisa que fosse, desde que bem acomodado dentro dos limites das nossas bundas marcadas nesse mesmo sofá de onde hoje escrevo. Realidade aumentada nenhuma substitui o cheiro de ossos partindo, da borracha queimada, do sangue escorrendo pelo asfalto quente, de tudo o que escorreu por esse sofá. Do que um mais incauto logo concluiria: só o sexo é real. Pode ser. Entre quatro paredes. Talvez, não na estrada. Podia não saber, mas parti.

Foram sete mil quilômetros até Buenos Aires, uns mil e quinhentos pelo interior da Argentina e outros cinco, seis mil pra voltar a Belém. Sim, daria pra escrever um livro sobre tudo o que vi e vivi na estrada. O mesmo valeria sobre tudo o que vi e vivi no sofá. Por eliminação, fico com a humanidade. Não julguem minha megalomania. Trata-se do fascínio causado a uma existência minimalista diante de um loop sem saída que o mundo se mostrou. You ask me why another road song, funny but I bet you never left home.

A humanidade. Enquanto julgava estar dirigindo um sofá com quatro rodas, sem fazer a menor questão de registrar o que dizia já ter sido registrado por milhares e milhares de outros androides, quantos pores do sol não perdi. A pressa de chegar, ainda que com a bunda no mesmo sofá. O guidão era meu controle remoto, uma nova paisagem a cada canal atravessado. O fantasma de Tristessa no banco do carona — thumbs up, cilibrinas.

Todas down. O frio da Consolação na espinha, bússolas já não norteavam mais nada. Tateavam-se perdidos no escuro. Perdidos. O fantasma de Tristessa deixou a porta do passageiro aberta. Do you ever wake up and find yourself alone? Dormiram ao relento já sem saber por que partir.

Quanto a mim, esperava derrapar de encontro à seca, laranjas na pista, carcaças às moscas, prostituição infantil em currais eleitorais, fome, peste, miséria. Que existem, existem. Do sofá, mesmo, sempre deu pra ver. Só que, então, tinha estacionado o sofá no meio do mar e resolvido sair nadando. Que morresse na praia. Sereias não existem, senão em tatuagens. Éramos a correnteza e eu escorrendo em segredo até onde o sonho pudesse aguentar. Que morresse na praia. Dormi, acordei. Pra nunca mais dormir.

Assim esperava. Mas, já de olhos bem abertos, o que não existia, o que não esperava veio à tona. Uma garrafa boiando no acostamento em meio à tempestade. Um casal de brasileiros bancando os pesos do pedágio que ameaçava minha passagem, cruzando a fronteira. Señor Alfredo contrabalanceando o excesso de suerte pelo caminho, sua Ford ’93 nos rebocando pra fora do barro em que atolamos depois de termos rodado na pista. Suelem e o colo de mãe. O cangote de Rafael, padrasto. Caindo de boca em Roma, o contrário do amor. Seu Edson me transportando com duas garrafas pet de gasolina na boleia do seu caminhão até meu carro no prego por falta de combustível. Temor da ida, rodeado por um enxame de gauchitos e seus cavalos numa procissão em homenagem a Gil, “Eres mi sueño” escrito na cobertura da carroça. Temor que, dessa vez, mesmo concretizado, não chegou a despertar um pesadelo. Quase dez mil quilômetros rodados àquela altura (alguma hora, o tanque tinha que esvaziar) e um sorriso tolo no rosto. Pelo menos não foi numa dessas madrugadas a caminho de Mendonza ou Córdoba ou de volta a Rosário e adiante, o silêncio insone de Nerusa velando meu delírio ao volante, à espera do sol que não nascia, à espera de Neruda num Valparaíso cada vez mais distante.

Not any farther from home, our sweet home.

O inferno, sempre se soube, são os outros. Foi pra lá que eu fui. Depois de um ano sentado num sofá, entrei no carro e parti. Só parti. Eu, Forrest. Sem mais. Rodei, rodei, cheguei até o outro lado, cansei. Olhei pra trás, resolvi voltar. Mesmo sofá. Nunca é o mesmo sofá.

Advertisements

About caco ishak

deu pau no servidor da verbeat
This entry was posted in articulices caquéticas, dois conto. Bookmark the permalink.