norman mailer explica:

Eu não desprezo as pessoas que entram nos movimentos de protesto. Pelo menos, pode ser bom ou até indispensável para o seu desenvolvimento pessoal. Mas eu gostaria que essa rapaziada abandonasse a ideia de que esses movimentos vão conseguir algum efeito político imediato e emocionante. Se é que terão algum efeito, pode ser um efeito negativo.

a reeleição de george w. bush, no caso.

já pelas plagas de cá…

errata: foi por pouco. ufa?

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marcelino quebrando tudo em belém

e saiu a primeira “resenha” do cowboy e logo escrita por quem… melhor, impossível. confesso: fiquei corado.

Voltemos ao Caco, o poeta, agora romancista. Acaba de escrever seu primeiro romance, o “Eu, Cowboy”. É densamente caudaloso. Uma das coisas mais incríveis que ouvi nos últimos temporais. E ele leu só um capítulo. O nascedouro de uma obra-prima.

e logo em qual contexto, belas (e precisas) palavras sobre a mangueirosa.

Correios das selvas. Explico de novo: samaumeiras são árvores que levam notícias. Elas reverberam. Os índios batem em seu tronco e o som propaga-se. Um aviso de que só se perde quem vive “se achando”. Vai ao alto o grito em seus galhos, a alma verde, em vexame.

coisa de mestre. dia foda na companhia de Marcelino Freire e Jorge Filholini, quebrando tudo pela frente nas quebradas de belém com o Quebras. beijos, parabéns, obrigado, reverbera, voltem sempre, viva e eta danado.

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mais acidentes

toqnf-liberal

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ou “ninguém aqui anda de bicicleta”

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mallarmargens

mallar-02

três poemas meus na revista mallarmargens. um inédito:

quando o poeta acordou
sua voz ainda estava lá

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coming soon

Tudo o que não foiem belém, o lançamento ocorre durante a abertura da semana do trânsito, no hangar, a partir das 11h do dia 18 de setembro, quinta. se liga no projeto não foi acidente.

“Minha mãe ficou desfigurada. Sem pálpebras, sem dentes, mal sobrou a cartilagem do nariz. A pele toda dependurada do rosto em carne viva. Eu não soube o que fazer na hora. Se acudia minha mãe, se ligava pro meu pai ou se dava o fora dali. Pois é, cheguei a pensar nessa possibilidade. Fiquei desorientado. Pensei que ela tivesse morrido. Quase saí no braço com o motorista do carro que bateu no meu, um senhor já de idade. O velho não sabia falar outra coisa além de ficar repetindo ‘não foi minha culpa, foi uma fatalidade, não foi minha culpa’, deu nos nervos. Foi amontoando gente, cada vez mais gente, chegou polícia, ambulância. Por último, meu pai. Primeira vez que ele encostou o dedo em mim. Um tapa na cara.” (trecho de Retrovisor, conto com o qual tenho a honra de participar)

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“You will not encounter the Mafia. If they still exist, they are not the least interested in foreigners buying properties in Sicily. If you ask Sicilians about the Mafia, they will tell you it’s something in New York”.

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Save Kaaddish

Ponto final. Começar histórias pelo fim, tipo de coisa que sempre me agradou. Não confundir com recomeço, não. Recomeços pressupõem ciclos fechados, tramas bem amarradas, nenhuma ponta solta, lençóis amarrotados em cestos de lixo hospitalar. Filmes sem continuação. Sequências me parecem honrar mais a dinâmica da vida. A saga seguinte começa de onde terminou a última. Ninguém entrando num carro e partindo rumo ao por do sol, créditos rolando sobre as expectativas do que poderia ser. Não, o sol sempre se levanta pra todos. Única expectativa possível. O resto, velho clichê, é consequência. Nunca esperamos o que vem em seguida. Lição aprendida. Ponto parágrafo.

Carlo Kaaddish. Anti-herói do meu primeiro romance recém-revisado. Um otário, autodenominado “elo perdido”. Um machoqueen, fruto da contracorrente drama-existencialista pós-sexual. Não é de se admirar que o livro tenha sido escrito há exatos cinco anos, daqui a um mês, e que o distanciamento tenha se consubstanciado em noites perdidas ao longo desse tempo todo de modo a permitir uma revisão aceitável. Páginas e páginas reescritas na tentativa de humanizar um bronco alfa. Meu querido Carlo Kaaddish. Prazer em conhecê-lo.

Nada pior do que pretender se passar por um Doutor Sabe-Tudo. Fracassados que encolhem os ombros diante de “Mestres da Verdade”, mas fazem travesseiros dos seus ombros diante dos seus pares fracassados. Cinco amigos. Cinco almas perdidas e sedentas nesse deserto do real em que insistimos viver, “escorregando pela espiral umedecida do tempo”, sunguinha e sorriso Colgate. Opiniões carregadas de frases de efeito na expectativa do autoboicote reconhecido unicamente por seus pares, ninguém mais. A __________ se resume ao yin corporificado, contrapondo-se à carnificina do __________ que se fez nossos yangs. Farpas disparadas a mil por hora e pra todos os lados. Certos assuntos incomodam. Interpretados à luz da ignorância ou da sapiência rasteira, e tanto faz. Depende do fracasso de quem os lê, decodifica e regurgita adiante. O desconhecimento de causa se redime ante à causa alguma que se diga própria, “só defendo”. Ou condeno. Sim ou não. A reflexão binária de mil e tantas abas abertas em nossos armários virtuais.

Carlo Kaaddish. Cinco anos e, em eras líquidas, ninguém mais concreto ainda hoje. Um otário binário. Que nem eu, você, eles, elas. Sem capacidade de pedir desculpas pois pra aceitar um pedido de desculpa se faria necessário reconhecer os próprios erros, senão tudo em vão, então: tanto faz. Ninguém mais tem tempo pra isso. Apesar de uma vida eterna pela frente. Sem pontos finais que não admitam borracha. Erros já não fazem parte do nosso ecossistema. Tudo experiência. Tudo comida. Tudo banal. Arrota-se o que nunca foi ingerido. Opiniões refletem nossas próprias incertezas. Tudo certo. Ponto em seguida.

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“Não dá pra simplesmente estacionar um barco no acostamento e esperar a tempestade passar”

Não sabia quando parti, mas minha meta sempre foi desacreditar de vez na humanidade. Um mais incauto perguntaria: e precisava sair do sofá pra isso? Fosse outro sofá, não. Não precisaria. O problema morava no cheiro do sofá. No cheiro do suor manchando o sofá. No suor do que um dia foi esse sofá e hoje não passa de memória olfativa. Na lembrança que ainda fazia de mim um crente em coisa que fosse, desde que bem acomodado dentro dos limites das nossas bundas marcadas nesse mesmo sofá de onde hoje escrevo. Realidade aumentada nenhuma substitui o cheiro de ossos partindo, da borracha queimada, do sangue escorrendo pelo asfalto quente, de tudo o que escorreu por esse sofá. Do que um mais incauto logo concluiria: só o sexo é real. Pode ser. Entre quatro paredes. Talvez, não na estrada. Podia não saber, mas parti.

Foram sete mil quilômetros até Buenos Aires, uns mil e quinhentos pelo interior da Argentina e outros cinco, seis mil pra voltar a Belém. Sim, daria pra escrever um livro sobre tudo o que vi e vivi na estrada. O mesmo valeria sobre tudo o que vi e vivi no sofá. Por eliminação, fico com a humanidade. Não julguem minha megalomania. Trata-se do fascínio causado a uma existência minimalista diante de um loop sem saída que o mundo se mostrou. You ask me why another road song, funny but I bet you never left home.

A humanidade. Enquanto julgava estar dirigindo um sofá com quatro rodas, sem fazer a menor questão de registrar o que dizia já ter sido registrado por milhares e milhares de outros androides, quantos pores do sol não perdi. A pressa de chegar, ainda que com a bunda no mesmo sofá. O guidão era meu controle remoto, uma nova paisagem a cada canal atravessado. O fantasma de Tristessa no banco do carona — thumbs up, cilibrinas.

Todas down. O frio da Consolação na espinha, bússolas já não norteavam mais nada. Tateavam-se perdidos no escuro. Perdidos. O fantasma de Tristessa deixou a porta do passageiro aberta. Do you ever wake up and find yourself alone? Dormiram ao relento já sem saber por que partir.

Quanto a mim, esperava derrapar de encontro à seca, laranjas na pista, carcaças às moscas, prostituição infantil em currais eleitorais, fome, peste, miséria. Que existem, existem. Do sofá, mesmo, sempre deu pra ver. Só que, então, tinha estacionado o sofá no meio do mar e resolvido sair nadando. Que morresse na praia. Sereias não existem, senão em tatuagens. Éramos a correnteza e eu escorrendo em segredo até onde o sonho pudesse aguentar. Que morresse na praia. Dormi, acordei. Pra nunca mais dormir.

Assim esperava. Mas, já de olhos bem abertos, o que não existia, o que não esperava veio à tona. Uma garrafa boiando no acostamento em meio à tempestade. Um casal de brasileiros bancando os pesos do pedágio que ameaçava minha passagem, cruzando a fronteira. Señor Alfredo contrabalanceando o excesso de suerte pelo caminho, sua Ford ’93 nos rebocando pra fora do barro em que atolamos depois de termos rodado na pista. Suelem e o colo de mãe. O cangote de Rafael, padrasto. Caindo de boca em Roma, o contrário do amor. Seu Edson me transportando com duas garrafas pet de gasolina na boleia do seu caminhão até meu carro no prego por falta de combustível. Temor da ida, rodeado por um enxame de gauchitos e seus cavalos numa procissão em homenagem a Gil, “Eres mi sueño” escrito na cobertura da carroça. Temor que, dessa vez, mesmo concretizado, não chegou a despertar um pesadelo. Quase dez mil quilômetros rodados àquela altura (alguma hora, o tanque tinha que esvaziar) e um sorriso tolo no rosto. Pelo menos não foi numa dessas madrugadas a caminho de Mendonza ou Córdoba ou de volta a Rosário e adiante, o silêncio insone de Nerusa velando meu delírio ao volante, à espera do sol que não nascia, à espera de Neruda num Valparaíso cada vez mais distante.

Not any farther from home, our sweet home.

O inferno, sempre se soube, são os outros. Foi pra lá que eu fui. Depois de um ano sentado num sofá, entrei no carro e parti. Só parti. Eu, Forrest. Sem mais. Rodei, rodei, cheguei até o outro lado, cansei. Olhei pra trás, resolvi voltar. Mesmo sofá. Nunca é o mesmo sofá.

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Deixem o titio falar

Marion Fayolle

Andam dizendo por aí (e o pior: pra crianças de oito, dez anos) que o lobo mau aqui sumiu de cena porque estaria em temporada numa clínica de reabilitação. Foi como meu dia dos pais terminou ontem, por volta das 22h, com mais um boato embrulhado pra presente. Quem precisa do Secret? E logo em Belém…

Meninas: Tio Caco não está e nunca passou por uma clínica de reabilitação. A única reabilitação pela qual passei na vida foi quando fiquei quatro meses de cama ou na fisioterapia pra restabelecer os movimentos da perna. O resto foi passeio. E que passeio. Porque sim, meninas, não importa o que digam a vocês: estamos na vida a passeio. E a vida não é Belém. Nem Secret. Não, também não é Facebook. Calma, deixem o titio falar.

A vida é só um amontoado de escolhas práticas. Nenhuma irreversível. Nada é irreversível nessa vida. Até a morte é um passeio. Tudo volta. Pode voltar. Depende da escolha ou do amontoado de escolhas que a gente faz. Do amontoado de escolhas me parece mais sensato. Porque não dá pra fugir das cicatrizes. E fugir pra quê? É bonito guardar essas cicatrizes pelo corpo. Tem até quem chame de body art. Mas vá lá: não ficou tão bonito assim? Faz uma tatuagem em volta, por cima. Deixa um espaço em branco, não escreve nada na bandeirola, que é pra ter sempre o que reescrever com uma caneta bic. Acho que esse é o ponto: estamos sempre reescrevendo nossos passos, nossas escolhas. A obrigação de escolhermos a todo momento. Que coisa, hein? Então, até pra escolher a gente é obrigado? O preço que se paga pela tal liberdade. Obrigados a sermos livres, parafraseando Tio Sartre.

Meninas: só tentem viver. Não se frustrem com os erros. Não importa quando foi que começamos a perder. Todos perdem. Que lindo seria tomar de goleada contra a Alemanha todo dia. Mais um mito caindo por terra. Mais um ídolo. Mais um tabu.

No fundo, lá no fundo, por mais que doa, eu me sinto honrado de ter sido a encarnação da perda da ilusão na vida de vocês; a representação da “extinção do mito da resignação”, nas palavras na orelha do livro. Pena que não por uma escolha minha (ainda tem essa: a vida acaba resvalando num amontado de escolhas práticas dos outros — outra lição do Tio Sartre, por sinal, mas fica pra próxima) ou, a bem da verdade, não por escolhas minhas. Não só. Porque, como já disse, nunca passei por uma clínica de reabilitação (por exemplo). E isso, sim, foi uma escolha minha. Várias e sucessivas escolhas. Que tudo tenha valido a pena. Que o passeio tenha valido a pena. Se não por mim (e como valeu), por vocês.

Mas, por ora, é bom parar. Que ninguém aqui é lobo, tampouco Paulo Coelho.

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