npdet na alemanha (em breve)

anarcho drama queennão precisa dizer eu também está sendo traduzido na íntegra pro alemão. agradeço aos tradutores e novos amigos, Marcia Huber e Burkhard Sieber, pelo interesse.

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má reputação (2006)

a quem interessar possa: pdf do meu primeiro livro, dos versos fandangos ou a má reputação de um estulto em polvorosa.

atenção: perigo de rimas soltas pelo caminho.

orelha:

Aqui, Leitor, um livro que alicerça uma única história, sugerindo a desistência para, traiçoeiramente, afirmar a paixão pela vida, apesar de reconhecer como verdadeiro par da existência a fatalidade. Aqui, há palavras febris programando um niilismo-barroco e, portanto, o paradoxo: trajetos na madrugada, minados de incerteza.  Não se engane com a simplicidade ou o falso-juvenil da algumas passagens. Há uma concisão propositalmente dispensada, um mergulho sem ar, quase sem luz, em busca da beleza e de um sentido que diminua o desconforto da rotina, a resignação pessoal diante do cômodo e dos mitos.  É isso, um livro que se propõe à extinção do mito da resignação. Quem conhece o Caco Ishak sabe muito bem do que estou falando. Nesse autor, uma singularidade: o abandono como ponta de sonho, como necessário em meio ao caos para que possamos lembrar que no fundo, no fundo, ainda somos humanos.

(Paulo Scott)

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botafora neoconcreto

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vem pro R.U.A.

rua3

a Cidade Velha, centro histórico de belém, vem recebendo nos últimos dias as cores do projeto R.U.A., “uma ação urbana com a artista plástica Drika Chagas, a qual propõe, com a ajuda da comunidade e do Projeto Biizu, produzir murais em grafite para nos fazer valorizar um dos primeiros bairros de nossa cidade” (John Fletcher).

fui convidado a participar com quatro poemas, que serão disseminados pelas ruelas históricas em lambe-lambes e stencils. coisa que queria fazer há um tempão. se ao lado de Drika, quem mui admiro (e dos escritores Rodrigo Barata e Élida Lima), tanto melhor. aceitei no ato.

rua2os organizadores estendem o convite a todos que quiserem fazer seus registros fotográficos sobre a Cidade Velha, ou compartilharem os que já possuem. analógica, digital, pin hole, lomo, vale tudo pra “montar um grande mosaico de imagens e narrativas”. os arquivos devem ser enviados pro email rotaurbanapelaarte@gmail.com

o resultado poderá ser conferido a partir do dia 31 de agosto na abertura oficial do projeto @ Fórum Landi, às 18h.

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gotaz na saraiva

gotazsaraiva

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o cara “do contra” na revista o globo

globo1407

Expoente da nova cena cultura do Pará, poeta circulou anônimo pela Flip

por Mariana Filgueiras | foto de Leo Martins

No pequeno poema que encerra o livro “Não precisa dizer eu também”, recém-lançado pela 7letras, o poeta e tradutor paraense Caco Ishak manda a astróloga mais famosa do mundo às favas: “Fuck you, Susan Miller. Best Regards, God.” Há algum tempo, Caco não está só mandando o céu, as estrelas, os planetas e seus satélites para aquele lugar. Mandou também o amor, o trabalho regular, a formação em Direito (que cursou por obrigação, diz). Só não mandou catar coquinho as três filhas — é uma só, Malu, de 9 anos, mas ele gosta de dizer que são três em uma — e a vontade de escrever.

— Se isso vai me dar dinheiro ou não, se vou conseguir fazer isso para o resto da vida, não sei. A única coisa que sei que quero e posso fazer é escrever — diz Caco, o codinome de Ricardo Ishak, 32 anos, numa mesa de bar em Paraty, durante a última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que terminou no domingo passado.

Expoente literário de uma safra cultural paraense que tanto tem chamado a atenção no país — da qual fazem parte nomes como Gaby Amarantos, Lia Sophia, Gang do Eletro, Felipe Cordeiro —, Caco circulava anônimo por Paraty, divulgando o novo livro de poesia. Quando todas as atenções pareciam voltadas aos autores convidados, outros tantos como Caco escondiam no bolso do casaco versos como “das paixões/ o que levo/ é a certeza/ de que a seguinte/ comeu o rabo/ da que lhe antecedeu” (do poema “69”). Ou “não sei dizer/ se acredito em Deus/ ou se sou o próprio/ tentando manter a calma” (do poema “Bis in idem”).

— A Flip é a Disney tupiniquim da literatura, faz a alegria dos novos e nem tão novos autores. Especialidade de escritor sempre foi beber e causar. Paraty é uma festa só. Entre um copo e outro, alguns tantos causos, e-mails trocados, há microcosmos tragicômicos e promessas de novos copos quebrados — dispara Caco, que não esconde a verve ácida em qualquer tema que seja lançado para debate, de política a paternidade — um sujeito “do contra”, digamos, em versão mais doce.

Mas essencialmente do contra. Nas recentes manifestações que se espraiaram pelo país, o poeta não se conformou em exercer a indignação com metáforas. Foi para as ruas. Um dos mais velhos entre a molecada que organizava os protestos, Caco acabou se tornando uma espécie de “orientador” dos jovens. Cruzou a cidade protestando. Acampou em frente à Câmara Municipal. Enfrentou a polícia. Filmou os abusos. E escreveu posts indignados.

— Belém é uma das poucas cidades que não conseguiram sequer baixar as tarifas de ônibus depois de todos esses protestos — criticou Caco — O Pará está sem governador há meses, afastado por um problema de saúde. É um estado sem comando. E os absurdos que acontecem lá não chegam aqui.

“Não precisa dizer eu também” é seu segundo livro (o primeiro, “Dos versos fandangos ou a má reputação de um estulto em polvorosa”, foi lançado em 2006). Caco começou a escrever aos 18, no zine “Macacada Fashion”. Passou a resenhar para o site literário “Capitu”, teve um blog, e antes de mandar a carreira como advogado para a casa da Susan Miller, foi dar aulas de inglês. Descobriu um linfoma, e o tratamento em São Paulo o fez escrever ainda mais. Foi colunista da revista do Lobão, teve contos publicados na coletânea “Poesia Sempre”, da Biblioteca Nacional, e em projetos literários organizados pelo escritor gaúcho Paulo Scott.

— O Caco é uma das grandes promessas da poesia contemporânea — elogia Scott, que participou como convidado da Flip na mesa “Formas de derrota” — Ele ainda não encontrou um formato mais palatável ao gosto acadêmico ou editorial, mas acho isso bom. Ele é correto na procura por uma linguagem. E tenho certeza de que ele já tem uma linguagem própria, o que é bastante incomum.

(Revista O Globo, 14/07/2013)

nota do entrevistado: não estou na organização do movimento. obrigado, mariana. belo texto. pra casa da susan miller.

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“Usa a buceta a favor do processo” (sic)

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A voz de comando era recorrente nas reuniões da banda, em Macapá, segundo fonte que preferiu não se identificar. O processo? Solidificar a participação dos caciques do Coletivo Palafita nos andamentos dos trabalhos em escala nacional do Fora do Eixo. A dona da boceta? Procuradíssima, preferiu sair da banda, do processo; foi uma das primeiras a abandonar a barca (ou sair remando pra bem longe), a “rachar” com o coletivo e todo o movimento. A história virou lenda e acabou sendo relegada aos anais obscuros e trancafiados a sete chaves da novíssima música popular brasileira. A banda, então mui bem cotada no mercado fonográfico e uma das principais apostas do FDE após a ruptura com a Vanguart e o instrumentalismo indigesto às FM’s da Macaco Bong, ambas cuiabanas e lançadas em anos subsequentes, acabou não saindo do estúdio até hoje, passados quatro anos.

Também, pudera. Em nome do processo, a música era o que menos importava. Enquanto qualquer banda que se diga independente sonha com a possibilidade de tocar em qualquer outro estado (Amapá, Alagoas, Acre que seja, pra ficar nos que começam com a letra A) nossa banda-personagem tinha dez, vinte, trinta convites pra shows por todo o país, mas preferia permanecer em Casa e se dava ao luxo de simplesmente recusar os convites. “Show bom era show estratégico” — politicamente, por supuesto. E é sempre bom lembrar: não existe amor na política. Na política, vale tudo — menos amor. Nem amor com porrada pode. Se for só porrada até vale. Porrada em mulher, por que não? Mas pera lá. Só se for de gente do FDE em gente do FDE. Senão, é vandalismo.

Ao tempo em que escrevo este texto, os caciques do Fora do Eixo estão soltando o verbo nas mídias sociais (publicamente ou em pvt). Tem que denunciar o Soldado Torres da PM/RJ, que bateu em uma manifestante! Justo, muito justo. Tinha mais é que dar uma coça de volta no cidadão. Mas por que dois pesos, duas medidas? Por que o Soldado não pode bater em uma mulher, em uma manifestante (!!!), e alguém do Fora do Eixo, um cacique do Fora do Eixo, pode? Por que fizeram tanta questão de jogar pra baixo do tapete o caso recorrente de violência contra uma das mulheres que faziam parte da Casa Fora do Eixo Amapá? Incluindo aí uma suposta cadeirada em suas costas em pleno Festival Quebramar desferida pelo coordenador da Casa, fato específico que teria sido testemunhado por vários membros do próprio coletivo e, na época, denunciado na rede (claro que não houve BO; o casal continua ainda hoje na casa, embora não mais como um casal). Denunciantes estes que, prontamente, foram taxados de malucos, sem noção, fora de órbita, sumariamente desqualificados em uma enxurrada de comentários memetizados por membros de coletivos país afora — ninguém (ou quase) de Macapá.

Ah, Macapá… tantas vezes escrevi sobre Macapá. Sobre o faroeste ímpar que era Macapá. E, hoje, novo bang-bang pelas plagas de lá. Não. Dessa vez, nada de aliciamento ou agressão. A lógica, tampouco, é das mais precisas. Tipicamente macapaense. Ora, se PM não pode bater em mulher e manifestante, mas cacique pode bater em mulher, logo cacique também pode denunciar manifestante que sai batendo e quebrando tudo por aí. Percebe? Confuso?

O “boato” (a testemunha acabou dando pra trás após ser ameaçada e desistiu de conversar com o repórter)  partiu de dentro da própria prefeitura: membros do Fora do Eixo, em Macapá, teriam cumprido seus papéis de cidadãos civilizados e entregue um envelope com as fotos dos “vândalos” que estavam nas manifestações ao senhor prefeito Clécio Luís. Que fofo, não?

Mas ninguém sabe de nada, é segredo. Ok? Assim como, no início das manifestações do MBL, ninguém sabia que um dos residentes da Casa Fora do Eixo Amazônia estava à frente das reuniões, um líder nato. Estavam todos lá, de Belém e Macapá e Manaus, empunhando bandeiras brancas, repetindo as palavras que ele proferia nos jograis, abrindo o próprio evento no Facebook, mas ninguém viu, ninguém ouviu nada. Quando o rapaz foi descoberto pelos demais manifestantes, que coisa: descobriu-se também outro infiltrado, com tanto poder de voz quanto o primeiro. Dessa vez, porém, o sanguessuga era da Juventude do PSDB. Mas ninguém viu, nem ouviu, nem sabia de nada. Ambos foram rechaçados e, com eles, as duas siglas que representavam. Duas semanas depois, qual não foi a surpresa: ninguém viu, nem sabia de nada. Claro. O FDE reapareceu nas reuniões com a seguinte alegação: “ele agiu por conta própria e foi limado da Casa”. Apenas mais um bode expiatório entre tantos “malucos sem noção” deixados pelo caminho. Ou que simplesmente resolveram abandonar a barca. Saíram remando…

E que caminho… resumão pra quem pegou o bote andando: antes do Fora do Eixo, existiam apenas os coletivos e suas respectivas redes em construção. Coletivos esses que defendiam, entre outros idealismos, o não pagamento de cachê em dinheiro pras bandas que tocavam em seus festivais (festival, afinal, é vitrine), receberiam em moeda solidária. Cubo Card, ring a bell?. Tudo em nome do fortalecimento da cena independente, então incipiente. Aí, surgiu o Fora do Eixo e tudo virou realidade. Começou em 2005 com quatro coletivos, quatro cidades, quatro regiões: Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR) — até hoje, não conseguiram “dominar” o Nordeste (faltam duas “unidades federativas”), diferente do que acontece nas quatro regiões de origem onde todos os estados têm sua representação.

Interessante notar o caso do Acre, em particular. Não levou nem sequer dois anos pra que, da noite pro dia, a cena independente ficasse em segundo plano tão logo Daniel Zen, então baixista da Filomedusa e uma das cabeças por trás do Coletivo Catraia, foi convidado por seu amigo de adolescência e então recém-eleito Governador do Acre, Binho Marques (PT), pra assumir a Secretaria de Cultura do Estado.

“Se eu não me engano, ele estava em Recife e o Governador ligou dizendo que queria que ele fosse o Secretário de Cultura. Ele disse que não queria porque ia desarticular toda a produção que ele tinha feito na cidade — o que de fato aconteceu: hoje, não tem mais festival, quase nem banda direito. O Pablo (Capilé) estava com ele e disse que ele não podia recusar”, conta uma nova fonte que, óbvio, também prefere não se identificar.

Dito e feito: não apenas aceitou, como levou as principais peças do Coletivo Catraia junto, que não demorou, conforme o próprio previra, a ruir. Levando consigo o Festival Varadouro, considerado um dos mais importantes e estratégicos na época (a exemplo do que aconteceu com o Calango, coincidentemente de Cuiabá). Coletivo, festival, pra que afinal quando se tem uma Secretaria de Cultura? Mas uma era pouco demais. Por que não juntar todas as Secretarias de Cultura logo de uma vez sob a asa do garoto prodígio? “Dá logo a presidência do Fórum Nacional dos Secretários de Cultura pro menino, pombas”. Imagino a conversa entre Tião Viana e o então Presidente Lula… meramente ilustrativa. Um ano depois de assumir a pasta no Acre, Zen virou Presidente do Fórum. O nome disso é competência, alguma dúvida? Tão competente, que não demorou até que a Secretaria de Cultura não fosse o bastante pra comportar tamanho talento. Resolveram trocar Zen de pasta. Da Cultura pra Educação.

“Secretaria de Educação é tipo brinde de bom trabalho”, filosofa nosso ilustre anônimo, apostando: “Zen, com certeza, será candidato à Presidência em alguns anos”. E Capilé, como não poderia deixar de ser, aposto minha caxumba, seu Ministro da Cultura.

Zen que, por sinal, é pré-candidato ao Senado pelo PT nas eleições de 2014 no Acre.

Mas, disso, ninguém sabe na Praça Rosa. Ninguém viu. Nem se fala mais no cara. O que poderiam dizer, afinal? Pura falácia. Coisa de maluco sem noção. De reaça fascista neonazista. Gente do bem, mesmo, é o povo do PSDB, que solta R$ 20 mil pro Fora do Eixo realizar o Grito Rock em Belém (I was there, kiddo). Ou da Juventude do PSDB, que se infiltra com a Juventude do FDE nas manifestações da capital paraense. Pessoal, parem com maldade. É claro que ninguém viu, nem soube de nada. Tampouco disse. O que poderiam dizer, afinal, não é mesmo?

Pois que digam o que seja. Prefiro ouvir o que Madô Lopez ou qualquer uma das milhares de mulheres que hoje vão às ruas na Marcha das Vadias teria a dizer sobre a ordem de comando horizontalíssima que dá título ao texto. Será que usaria a boceta a favor do processo? Será que admitiria levar porrada do companheiro em nome do processo?

Quem tem boceta que se cuide, portanto. Pois, via de regra, quem tem cu…

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Um dos coordenadores da Casa Fora do Eixo Amazônia foi confrontado duas vezes sobre as questões expostas acima e se limitou a negar os fatos, apesar de afirmar ser “contra a administração de Macapá”.

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a ilustração acima foi feita às pressas, pilha total no lombo do vermelho, pra fechar nossa participação na terceira edição da revista gotaz. acabou ficando de fora por falta de espaço, apesar de ser uma das que mais gosto da série — na qual uma das páginas acabou sendo publicada por engano nosso na hora de enviar os arquivos (a correta, aí embaixo), mas nada que, nem de perto, comprometa o resultado final e o prazer que é estar numa publicação feita por esses caras do estúdio gotazkaen. obrigado pelo convite, diana figueroa e daniel zuil, brunno apolonio e elvis rocha. parabéns pela revista, pelo trabalho.

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fábio vermelho: teu inferno astral está só começando, meu filho. ficou fodão, garoto. eu, cowboy meets weird works. em fase de construção. gosto de encarar como um incentivo. vida longa à parceria.

na íntegra, aqui.

ps- minha favorita:

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npdet no correio braziliense

correio braziliense

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pros diabos com o amor

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“Até o dia em que passeatas não serão mais necessárias, apenas mera ameaça”.

Há alguns meses, esse era meu medo. Hoje, é esperança seria?

Explico.

Ninguém aqui levanta bandeiras. Anulo meu voto ou nem mesmo compareço às urnas faz dez anos. Apartidário convicto. E sem vocação alguma pra armar palanque em prol de interesses escusos. Minha maior motivação ao escrever este texto? Certificar-me de que não estou e nem estarei sendo conivente com qualquer um que venha a-tirar proveito político-partidário da situação só porque estou disposto a levar algumas balas de borracha no lombo — pimenta no cu dos outros, aquela velha história. Não acredito no amor, tampouco duvido dele. Conheço alguns bons causos, até.

Pra chegar ao poder, por exemplo, Haddad precisou de todo o frisson provocado na rede por conta de seus belos olhos rasgados — da mobilização popular maciça por parte de determinados movimentos sociais. O que não se diz (assunto proibido no meio) é que o Ministério da Cultura foi moeda de troca na conquista da Prefeitura de São Paulo. Um grupo teria acesso, digamos, privilegiado à Ministra Marta, ao próprio futuro-eleito prefeito e, em troca, os movimentos sociais fariam brotar amor do concreto da Praça Roosevelt, então rebatizada “Praça Rosa”. Existia amor em São Paulo, os cabeças defendiam.

O diabo, porém, veste vermelho e acabou cobrando bem mais do que 20 centavos de quem pactuou. Logo após o resultado do primeiro turno, na noite daquele mesmo domingo, Haddad caía nos braços de Russomano. O ideal de amor, aquele amor platônico, começava a escoar pelo ralo. Desculpas e exigências pipocavam nos perfis dos outrora amantes, tudo teatrinho. Cão que ladra não morde. Rosna, mas não larga o osso: Haddad bateu Serra.

E, seis meses depois, cá está de braços dados com Alckmin (em tempo: impeachment nele e em todos os governadores que admitirem o uso da força policial na coibição das manifestações em seus estados). Haddad torce a cara a seus fiéis cupidos, não demora e surge uma nova onda de chantagens emocionais pelo Facebook e o prefeito aceita discutir a relação — feito o marido bondoso e cheio de razão que recebe de volta a sua casa a esposa expulsa por ter se comportado mal na festa após uns drinks. Que sirva de lição pra quem fez campanha pró-Haddad: não existe amor na política. Somos todos palhaços.

E, após nossa Revolta da Salada, ainda somos obrigados a ficar com as palavras indigestas de Marta Suplicy entaladas em nossas gargantas: “Isso não é protesto pelo aumento da tarifa do transporte! O que esta por traz dessa incitação de violência?” (sic). Marta sabe muito bem o que estava por trás do protesto. Conhece bem as jogatinas do amor. E, claro, tem razão: não se tratam de 20 centavos.

Mas do que se trata, então? Trata-se de medo. Trata-se de esperança. Medo de que as coisas nunca mudem — só piorem. Esperança de que alguma coisa possa mudar. E não duvidem, crionças e crianços dessa Brevida (com a permissão de Juliana Amato): enquanto houver vozes que falem pelo polvo, que representem o polvo, nada mudará — mudo nadará e as lulas continuarão emergindo sob um céu tucano.

Enquanto as primeiras passeatas esboçavam mera massa de manobra mobilizada por jovens aspirantes a carguinhos políticos (é só checar por aí, uns chegaram lá; outros continuam no corpo-a-corpo pra garantir o status quo do movimento; e não estou falando do MPL aqui, lembrem-se), eu tinha medo. Um gatuno simplesmente substituiria o outro. Hoje, até tenho esperança. Porque o que vejo é a juventude hipster vivendo sua apoteose vintage, indo pras ruas e rodando seu remake de 68 com seus celulares.

São classe média? São. Continuam os senhores da ironia? Continuam. Mal sabem o que fazem lá? Alto lá. São cidadãos. Pagam o dobro, o triplo do preço por seus Macs só por causa dos impostos e não se sentem seguros pra usá-los no espaço público. A apatia política característica da geração, sempre defendi, nunca deixou de ser um ato político. Ao virar as costas à política, simplesmente afirmam: não acreditamos mais em vocês, então tanto faz; não acreditamos no Estado, em partidos, em políticos, na polícia, em qualquer tipo de autoridade, apenas no que a vida e a tecnologia podem nos dar. Pois bem. Querem mais. Querem ir e vir — de preferência, em segurança. Querem portar vinagre. Querem um sentimento encarnado, uma experiência que não virtual. Querem gozar nas ruas da mesma liberdade que gozam em suas casas, navegando.

A liberdade que nos prometeram aqueles que, em 68, lutaram pra derrubar os militares e, hoje se comprova, subir ao poder e lá se refastelar e ainda por cima se valendo da guarida dos mesmos milicos que os perseguiam. Mas, então, o que dizer da nova Lei Antidrogas? E de Belo Monte? E dos Felicianos e seus Nascituros? E das PEC’s da vida que nos revogam direitos constitucionais que nunca usufruímos, afinal? Que nem o imposto sobre grandes fortunas, há 25 anos à espera de uma lei que o regulamente? Talvez, o mais importante no meio de tudo isso, de tanta indignação: a reforma política há anos empacada, empurrada pra gaveta, incluindo aí o fim dos salários e gratificações dos vereadores, pelo menos. Não menos importante, é preciso extirpar de uma vez por todas os resquícios da ditadura de nossas vidas: que acabemos o serviço começado pela geração da presidenta e legitimemos o fim da polícia militar. A sociedade (uma parcela, ao menos) já não tem estômago e nem comporta mais qualquer tipo de comando que não horizontal.

Apesar de não ser simpático à rejeição total da autoridade, Richard Sennett defende o diálogo permanente e o reconhecimento mútuo entre esta e quem a ela se submete. Manuel Castells vai atrás e, sobre as manifestações em São Paulo, afirma: “Porque, fundamentalmente, os cidadãos do mundo não se sentem representados pelas instituições democráticas (…) Eles são contra esta precisa prática democrática em que a classe política se apropria da representação, não presta contas em nenhum momento e justifica qualquer coisa em função dos interesses que servem ao Estado e à classe política, ou seja, os interesses econômicos, tecnológicos e culturais. Eles não respeitam os cidadãos. É esta a manifestação. É isso que os cidadãos sentem e pensam: que eles não são respeitados”. E respeito, é sabido, a gente só dá se recebe de volta. Que os palhaços sejam eles dessa vez.

Meu conselho, portanto, é: não tomem cuidado. Isso não é um game. Não é hora de ter cuidado. Cuidado se tem no conforto do quarto, à frente do computador. Que isso tudo fuja do controle. Derrubem todo tipo de autoridade. Soterrem o orador. Que o poder fique nas mãos do povo, de fato, e não de quem supostamente o representa e coloca palavras na boca de uma nação de pobres filhos de pais ricos — seja de um gabinete ou de um coletivo.

Não precisamos de novos líderes, precisamos de novos mártires. Mais terror nos olhos de quem não nos representa. Precisamos retribuir um pouco do horror cotidiano a que somos submetidos nessa relação doentia de amor, a “demoncrazy” pintada pela artista plástica americana Jami Denton. Mais horror, menos amor. Sem mais promessas. Não precisamos de novas promessas de amor. Pros diabos com o amor.

Até o dia em que passeatas não serão mais necessárias, apenas mera ameaça.

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Na TáBUA

natabua

dia desses, enfim recebi o arquivo do Na TáBUA (fabio zimbres + paulo scott) em que participo. compartilho.

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