em construção

foto

a casa que não construí pra mim
era habitada por fantasmas

aquele velho clichê

mas os fantasmas que habitavam
a casa que não construí pra mim
não tinham correntes nem toalhas
encharcadas de lençóis dormidos

não pregavam os olhos pelas paredes
não traziam cabeças em bandejas
porcelanatos, velas, alho, vinho

vi um lenço — acho que vi

mas nada de retrato, espectros
bolor, visco, esparadrapos
pegada alguma, nada

sabia que um dos fantasmas
devia ser uma menininha
pois num quarto as bonecas
viviam espalhadas pelo soalho

já o outro fantasma, nem sei
não derrubava pratos, panelas
escutava-se apenas o pranto
dum ventre em decomposição

como se me bastasse

pois aquele cheiro
aquele velho cheiro
era o cheiro de casa

a casa que não construí pra mim
habitada por fantasmas que
todos sabemos bem
não existem

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fim

“Eu sempre encarei [a gente] como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir… eu a respeito mais do que outras mulheres e tem alguma coisa no jeito dela que eu simplesmente adoro… [mas] se alguém me dissesse há vinte anos que minha mulher poderia sair por aí e trepar com um dos meus melhores amigos [Ryan O’Neal] e que eu acabaria lendo sobre isso nos jornais e, quatro anos depois, eu estaria cagando pra tudo isso, eu diria: ‘Acho que você tá me confundindo com outro cara. Esse aí não sou eu, não. Eu posso até querer ser esse cara, mas não, não sou eu, não’. Agora, eu sou”.

— Jack Nicholson

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nerval

dois poemas (e meio) inéditos, cinco no total.

aqui, na revista nerval (filhote da flaubert).

abaixo, um dos inéditos:

 

spotless

o segundo passo é sempre o mais custoso
é sempre um susto que arrasta o primeiro

às vezes, nos joga pra trás
às vezes, nos leva ao terceiro

e mesmo quando já não sobram solas
e até os calos ficaram pelo caminho

às vezes, é sempre um susto
sempre o custo de a cada segundo

ressincronizar

pra que um descompasso não bifurque
as pegadas que deixamos faz pouco

junto às lembranças
que o rastro das nossas caldas
tratou de apagar

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cumplicidade em versos soltos

prometi não escrever uma linha
palavra que fosse sobre a gente

que este seja apenas o primeiro
posto que passa o que não acaba

então, que dure

até um novo poema embrulhado

se acabou numa traição
(autotraição, autoboicote)
recomeça-se tudo outra vez

agora, sim, eu sei
nada mais é necessário

(das expectativas que tive até hoje
prefiro a de quem já não se engana
e bota a ansiedade pra dormir)

a dor de memorandos e etiquetas e
esgrimas e contas pagas e teu coração
numa forquilha que eu julgava nossa

essa dor não vale a
tranquilidade de uma página
virada atrás da outra e a seguinte

não vale cada ponto final dum parágrafo

sou o que já não quer mais representar
o anti-herói na orelha de best-seller que seja
muito menos duma série na tevê

então, que dure

e durma e acorde sem
sonhos ou pontas de facas senão
entre o dormir e o acordar

simplesmente carregando
o abandono cotidiano nas costas

no colo

então, que dure

como um poema em versos soltos
na cumplicidade de sempre reescritos

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dois estranhos no ninho

jack-nicholson“With my sunglasses on, I’m Jack Nicholson. Without them, I’m fat and sixty.” Whatever he’s wearing, Jack Nicholson ranks as a bona fide Hollywood hero and antihero combined, famed as much for his off-screen candor (“I only take Viagra when I’m with more than one woman”) as for his Oscar honors (12 nominations and three Academy Awards). With its stories of its subject 50-year film career and offstage romps, Marc Eliot’s Nicholson is as entertaining as any biopic. A biography that will please both film historians and celebrity tell-all fans.

nicholsontentando ocupar a cabeça com outra tradução. dessa vez, “Nicholson: A Biography“, do americano Marc Eliot. o pai aqui estava precisando de um herói de verdade, afinal. promete. pela Novo Século.

“Eu sempre encarei [a gente] como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir… eu a respeito mais do que outras mulheres e tem alguma coisa no jeito dela que eu simplesmente adoro… [mas] se alguém me dissesse há vinte anos que minha mulher poderia sair por aí e trepar com um dos meus melhores amigos [Ryan O’Neal] e que eu acabaria lendo sobre isso nos jornais e, quatro anos depois, eu estaria cagando pra tudo isso, eu diria: ‘Acho que você tá me confundindo com outro cara. Esse aí não sou eu, não. Eu posso até querer ser esse cara, mas não, não sou eu, não’. Agora, eu sou”. ( Jack Nicholson)

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87%

Bom e velho Jurunas. Música alta estourando de toda e qualquer casa que se preze, toda e qualquer coisa que se mova. Escoadouros de chão batido entrecortando o asfalto onde o sol é mais sol em Belém. Arborização, só prensada ou camarão. A cada esquina, sacos de lixo atulhados e um pivete na dúvida se te esfaqueia por uma cabeça de pasta ou se espera mais um pouco até a aparelhagem passar. Faroeste pós-moderno em plena selva amazônica. Os curtas sobre o sul do Pará transmitidos ao meio-dia em tevê aberta e as fotonovelas estampadas nos cadernos policiais da capital acabaram sendo dos mais didáticos na hora de ensinar tudo sobre os clássicos do bang bang importados dos States. Junta o brega rasgado: romântico sem igual. Meu bom e velho Jurunas.

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iBang

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O propósito desta dissertação é apresentar um levantamento bibliográfico dos principais autores que analisam as possíveis fronteiras de diálogo entre a evolução das tecnologias de informação entre os séculos XX e XXI, com destaque para as descobertas no campo da física quântica e das ciências complexas aplicadas à informação e à computação, e o campo da comunicação, no qual está inscrita esta pesquisa. Seu objeto de estudo, portanto, é o entendimento crítico desse universo de interdisciplinaridade que põe em contato conhecimentos vindos da mecânica quântica e da filosofia, a partir da perspectiva dos estudos da comunicação. Haveria nesse diálogo algum caminho possível rumo à solução dos paradoxos hipermodernos (em especial no que tange à comunicação, com reflexo em aspectos culturais diversos), enfrentados no “dilúvio informacional” (Lévy, 1999, p. 14) do começo deste Século XXI? Quais contribuições poderiam ser obtidas em benefício dos estudos comunicacionais? Como conceber agora o sujeito da comunicação, em uma época em que muito se fala do pós-humano, mas pouco se sabe sobre a “hibridização homem-máquina” (Kurzweil, 1999, p. 234)?

Nessa perspectiva, esta dissertação pretende reunir elementos que contribuam para a compreensão dessa nova discussão teórica que vem se apresentando, que abre indagações desconcertantes, mas incontornáveis. Em que medida se pode falar em epistemologia da informação? Dentro desse debate, a pesquisa parte do pensamento de autores que arriscam formulações novas, entre as quais a supracitada hibridização homem-máquina de Ray Kurzweil, a informação quântica de Vlatko Vedral, o tautismo de Lucien Sfez, o conhecimento evolucionário de David Deutsch, o pós-humanismo de Peter Sloterdijk e Douglas Rushkoff, a liquidez de Zygmunt Bauman, a intemporalidade de Manuel Castells, a inteligência coletiva de Pierre Lévy, a darknet de J.D. Lasica, o capitalismo punk de Matt Mason, o mundo sem protocolos de Alexander Galloway, a epistemologia de Gaston Bachelard.

então… também já fui acadêmico. apesar de não ter saído exatamente como eu queria, a dissertação na íntegra pode ser baixada aqui.

em tempo: deutsch tinha razão.

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63%

Eu, cowboy. Desbravando sinais fechados. Relinchando pneus a cada esquina. Tocando o terror no meu berrante. Saltando lombadas. Dando pinote em buracos. Descendo o chicote no lombo dos meus sessenta e cinco cavalos.

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antologia de poesia brasileira

vi hoje no blog novo da Ana Guadalupe (por sinal, entrevistada pela Alice Sant’Anna na Rádio Batuta) que já foi anunciado o projeto da editora americana Scrambler, An Anthology of Contemporary Brazilian Poetry, com organização da própria Ana e do Jeremy Spencer. será publicado em edição online e de papel, logo, logo, e contará com trinta e cinco poetas contemporâneos brasileiros. entre os quais, eu.

em breve.

enquanto isso, retomei a revisão do eu, cowboy. 40% 50% e contando.

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se encaixa

quebra cabeça

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