revista pessoa

Captura de Tela 2016-03-28 às 15.33.59Bolívar Torres me sabatinou pra Revista Pessoa. venho me especializando em assuntos de cunho nonsense:

RP – Discorra sobre esse possível tema de estudo: a influência da britadeira ao lado para o romance brasileiro contemporâneo.

CI – Autêntico mantra, a britadeira ao lado se mostra incansável ao repisar ao autor: “obra em construção, obra em construção, obra em construção”. Há quem sucumba e parta para a violência, todavia, seja implodindo tudo – auto-terrorismo poético – seja parando atrás das grades por agressão, nova autoficção a caminho. Ademais, o presente estudo pretende demonstrar como a expansão imobiliária se correlaciona com o crescimento do número de jovens escritores: Paulo Coelho e o sonho da casa própria.

continue lendo aqui. agradeço o espaço.

Posted in clipping, papo-furado | Comments Off on revista pessoa

confissão coletiva nas simetrias dissonantes

12783726_1718249781780052_1091351625009539901_oGláuber Soares, eu e mais uma turma boa acabamos cedendo e aceitamos a delação premiada proposta por Nelson de Oliveira. Os testemunhos vazaram e foram parar na coluna do homem na edição de março do jornal Rascunho.

Posted in participações | Comments Off on confissão coletiva nas simetrias dissonantes

somos mais limpos pela manhã

Bom dia.

Clichê já batido, eu sei, só não resisto à analogia entre literatura e boxe após ler “Somos mais limpos pela manhã”, ao que desde já peço perdão. Fato: um bom boxeador não sai desferindo socos ao vento. Sabe quando se esquivar. Quando sapatear mais um pouco pra confundir o adversário. Quando ameaçar um jab e recolher o braço e desarmar com a esquerda pra enfiar um gancho e, aí sim, com o adversário já devidamente desnorteado, desencadear uma sequência de golpes que há de botar o sujeito pra beijar a lona. Isso, se o sujeito não for um lutador de rua. Lutador de rua não beija lona. Nem sobe em ringue pra começo de conversa. Ao ringue o que é do ringue, afinal, e à rua… o asfalto. E quem é da rua se recusa a beijar o asfalto, a baixar a cabeça aos “profissionais”, não: levanta, mesmo um tanto cambaleante, e ainda tira onda antes de partir pra cima, já aperfeiçoando a técnica do oponente manjada na surra levada de início. Veja bem: aperfeiçoa, não emula. Lutador de rua é malandro. E malandro que é malandro não emula, reinventa. Este, portanto, não é o livro de um boxeador.

Ludibria direitinho, o menino. Quem vê a cara de anjo do Jorge Filholini nem imagina a fauna de demônios que habitam o moço, ensovacados por ouvidos e dentes ao longo dos caminhos percorridos de norte a sul, palafita a pau a pique, por um observador sempre em alerta. Não à toa, outra arte que o Filholini domina com sensibilidade aguçada: a fotografia. E lá estão registrados todos os personagens. O servente de obras, o idoso, o crente, o pai de família, o pai com AVC, o pai que mata a própria filha, o próprio personagem, um taxista reaça atropelando ciclistas, um traficante, o amigo traíra, o farelo levado pelo poetinha da baixada, o poetaço, a estrela do Face. Cada conto, uma fotografia pintada à mão. Ou sopapeada mente adentro.

Continue reading

Posted in articulices caquéticas, participações | Comments Off on somos mais limpos pela manhã

cowboy no suplemento pernambuco

Bastidores_FEV16

Nunca li David Foster Wallace. Lembro de quando Hermano apareceu com Infinite Jest debaixo do braço, aquela capa horrorosa à guisa de souvenir, outro, duas malas, mais um réveillon em Nova York com os pais. Avancei em On the road atochado no sovaco da esquerda. Nove anos se passaram e eu sempre de carona num sofá com os beats. Hermano, enamorado por DFW (mais Eggers, Franzen, Easton Ellis). Não falava de outra coisa. Embora os tópicos me soassem familiares, foi inevitável: criei birra. Nove anos se passaram antes que eu caísse em tentação e, folheando a Piauí num frio de cerâmica, acabei lendo o trecho de This is water, publicado na edição do mês seguinte ao suicídio. Quarenta e seis anos. Eu, 27.

Captura de Tela 2016-02-01 às 15.39.20baita alegria ter sido convidado por Schneider Carpeggiani e Carol Almeida pra escrever sobre o Cowboy na seção Bastidores do Suplemento Pernambuco, um dos últimos bastiões da crítica literária tupiniquim. com a bênção de Ana Cristina César na capa da edição 120 e os 20 anos de Infinite Jest então….

“There’s nothing more grotesque than somebody going around saying ‘I’m a writer. I’m a writer. I’m a writer’ (…) To have written a book about how seductive image is, how easy it is to get seduced off of any meaningful path because of the way our culture is now. What if I become a parody of that very thing?”

em tempo: cá, as Cinco notas sobre a franqueza, do Pellizzari.

Posted in articulices caquéticas, clipping, cowboy | Comments Off on cowboy no suplemento pernambuco

são paulo 462

Minha janela dá pra Igreja da Consolação e os sinais de fumaça dos skatistas e parlapatões disputando a TAZ rooseveltiana com os canas e beiçolas. Dá pros helicópteros sobrevoando a Praça da República onde estudantes e black blocs são pisoteados por porcos do bico amarelo. Dá pros titutos do Copan, titutos da Baixo Augusta, titutos do Mackenzie. Dá pros fantasmas do Antigo Hilton. Pro escuribreu de um túnel sem saída numa estação eternamente em obras. Minha janela já deu pros zumbis da Sé ou da Paim, mas isso não é coisa que um pai exponha assim em quinze linhas. Já deu pra moça que nunca olhava pra cima, o topete de chifres atrapalhando a vista. Já deu pra bleomicina a conta-gotas, e mijava o sangue de todos que aos poucos iam morrendo em mim. Pilhas e pilhas acadêmicas, farmacológicas, o marginal virou rapazinho ainda que trancafiado do outro lado da janela. Que hoje dá pro batuque de Hamelin hipnotizando a resistência tremembé Minhocão abaixo e rumo às muradas dos Campos Elíseos. Pro mesmo céu cinza de sempre e próprio da mistura de todos os credos – picolé (ou sorvete) de Tietê.

fui convidado pelo Livre Opinião a escrever um depoimento em homenagem a são paulo ao lado de um monte de gente bacanuda. da minha parte, saiu isso.

Posted in articulices caquéticas, papo-furado, participações | Comments Off on são paulo 462

oitava arte

barcafé

[e o que é poesia, afinal?]

pro Caco,

a poesia é uma pílula

necessária nos duros dias que seguem e depois de engolida

a pílula-poesia explode

dentro de você, causando efeito

Estufa.

nos disse que tem se tornado cada vez mais difícil escrever poesia, que ele tem gostado cada vez menos das que tem escrito, mas quando

Ele leu um poema-seu em um Sarau que estávamos, nós ficamos

De boca

Aberta e fomos

Falar com ele pelo poema que tínhamos engolido.

.:.

um bate-papo deveras agradável com as poetas Aline Bei e Ju Soares sobre o cowboy e outras firulas no Barcafé do OitavaArte. continue lendo. obrigado, meninas.

Posted in clipping, cowboy, papo-furado | Comments Off on oitava arte

bonde cuspindo gente

layse-almada

e no aniversário da Mangueirosa, sai a capa de “Bonde Cuspindo Gente – Belém: 400 e Tantos Anos de Prosa”, antologia de contos/crônicas em “homenagem” ao quadricentenário, com arte de Layse Almada e projeto gráfico de Tiago Trindade, prólogo do mestre Flávio Nassar.

fazia tempo que queria organizar uma coletânea com a nova moçada das letras paraoaras – a maioria jamais publicada (“mas eu nem sou escritor”, cansei de ouvir). alguns nomes ficaram de fora por um motivo ou outro. todavia: que baita time. cada autor, um bairro. autores na casa dos 40 pra baixo. e garanto: tá firme. e um tantinho controverso, que é como noize gosta. parabéns à cidade (essa guerreira) e a todos os envolvidos. segue a lista:

Baía do Guajará – Ana Clara NM

Batista Campos – Gustavo Rodrigues

Benguí – Leonardo Aquino

Cabanagem – Romário Alves

Campina – Natalia Brabo

Canudos – Adriano Barros

Cidade Velha – Karina Jucá

Círio – Inaê Nascimento

Combu – Maíra Guimarães

Comércio – Ana Carolina Gomes

Condor – Ricardo Silva

Coqueiro – Bárbara Santtos

Cotijuba – Dany Neves

Cremação – Tylon Maués

Curió-Utinga – Luah Sampaio

Entroncamento – Laisa Kaos

Exterior – Renmero Rodrigues

Fátima – Bianca Levy

Feliz Lusitânia – Gabriela Sobral

(De) Frente pro sol – Bor Blue

Guamá – Monique Malcher

Icoaraci – Ismael Machado

Ilha das Onças – Luiza Maria Chedieck

Interior – Anderson Araújo

Jurunas – Caco Ishak

Maracangalha – Marcelo Damaso

Marahu – Marcela Maria Azevedo

Marambaia – Thiago Kazu

Marco – Mayara La-Rocque

Mosqueiro – Louise Lessa

Nazaré – Flávia Cortez

Pedreira – Patrícia Rameiro

Pratinha – Paloma Franca Amorim

Reduto – Vladimir Cunha

Sacramenta – Toni Moraes

São Brás – Karla Nazareth

Souza – Teresa Dantas

Tapanã – Preto Michel

Telégrafo – Daniel Leite

Terra Firme – Mônica Almeida

Umarizal – Rodrigo Barata

Zona Metropolitana – Dayane Ferreira

pra quem não pescou: o título foi retirado de um trecho do romance “Belém do Grão Pará”, do mestre Dalcídio Jurandir.

aqui, matéria de Gustavo Aguiar no Reduto Cult. daremos notícias.

Posted in coletâneas & agremiações, dois conto, participações | Comments Off on bonde cuspindo gente

cowboy por biajoni

Para finalizar, alguns livros que me deram grande diversão: “Eu, Cowboy” de Caco Ishak; “A Pedido do Embaixador” de Fernando Perdigão; “Que fim levou Juliana Klein” de Marcos Peres; “Biofobia” de Santiago Nazarian e “Carne de Canhão” de Agustín Arosteguy.

luiz biajoni escolheu suas melhores leituras de 2015. eu, cowboy está lá. gracias, maestro.

Posted in clipping, cowboy | Comments Off on cowboy por biajoni

cowboy no correio braziliense

12421653_10208804675938499_1739772268_nNahima Maciel teve coragem de perguntar, eu tive coragem de responder.

agradeço demais (mesmo) o espaço, a oportunidade de falar o que havia muito estava entalado. como o site é fechado pra assinantes, joguei a entrevista na íntegra abaixo.

.:.

Na estreia em prosa, Eu, cowboy, Caco Ishak reflete sobre o choque entre os séculos 20 e 21

por Nahima Maciel

Carlo Kaddish está em crise. Ainda não completou 30 anos, mas já é herdeiro de uma geração que nasceu a cavalo entre dois séculos. O personagem de Eu, cowboy, o primeiro romance publicado de Caco Ishak, vive à sombra do fracasso, na expectativa de vários fatos que não acontecem e que acabam por tomar a dimensão de uma crise existencial. Ishak define Kaddish como “o elo perdido” entre dois tempos, um sujeito que sempre tenta “puxar a sardinha” para o século 20 enquanto vive os excessos do século 21. Um pária, na visão do autor. “Visivelmente perdido, controverso. Como acontece em todo choque entre gerações”, garante Ishak.

Kaddish vive em Belém, é pai de uma garotinha sobre a qual pouco revela, tem uma turma de amigos-companheiros de baladas junkie-trash e transita entre o submundo e a elite. O rapaz tem vários planos para depois, mas não realiza nenhum. Seu malogro é sempre iminente e funciona como um combustível. Não há meio termo e, como boa parte de sua geração, Kaddish tem voz ativa nas redes sociais e por lá exercita uma parte de sua personalidade autodestruidora e egocêntrica. E vive no mesmo ritmo que Ishak escolheu para a narrativa.

Goiano criado no Pará, autor de dois livros de poesia — Má reputação e Não precisa dizer eu também — considerados uma das revelações da jovem poesia brasileira dos últimos cinco anos, Ishak escreveu um romance veloz, cheio de quebras de linguagem que parecem remeter aos fracassos do personagem, cujos diálogos são reproduzidos como se fossem um fluxo de consciência.

É fácil comparar a escrita de Eu, cowboy com aquela praticada pelos poetas e autores beats, mas o curioso é que o personagem de Ishak, ao contrário dos americanos de Jack Kerouac, não sai do lugar.

O cowboy do título é uma referência ao arquétipo do machão, aquele, Ishak aponta, eternizado por Marlboro, o mesmo vivido por Clint Eastwood e Butch Cassidy, ou, mais recentemente, por John Travolta e Matt Dillon. É uma referência de época que ajuda a marcar a crise existencial de Kaddish, mas também uma realidade que, para o autor, não pode ser ignorada. “Tem o lado dessa coisa bem século 20 dos seriados nos primórdios da tevê, os primeiros enlatados americanos. Daí cowboy, não caubói. O próprio ideal de caubói que nos vendem através dos mega rodeios da vida pelo interior não tem nada a ver com a realidade no campo”, diz. “Nossos peões passam longe disso no dia a dia. Embora seja justo o arquétipo em si da outra extremidade no paradoxo, fazendo frente à parcela tautista da sociedade que se pretende digital, igualitária. Acho que não existe nada mais emblemático para ilustrar esse choque entre o terceiro-mundismo e a transição da hiper-modernidade ao pós-humano do que a figura do caubói/cowboy”.

Elogiado pela crítica — Mario Bortolloto ressaltou o alter-ego “Ginsbergiano” de Caco, Marcelino Freire confessou que queria ter escrito o livro e Daniel Pellizzari simplesmente aprovou —, Eu, cowboy é um livro para se ler de uma vez, de um fôlego, sem piscar nem escorregar, de um jeito a não desgrudar do ritmo da linguagem.

ENTREVISTA: CACO ISHAK

Seu personagem é um reflexo de uma figura comum hoje em tempos de redes sociais como repositório do que há de mais efêmero e superficial da sociedade contemporânea?

Totalmente e de maneira nenhuma. ​O Cowboy é seu próprio crítico e nem faz ideia disso. É um tautista, fechado em si mesmo, neurótico, delirante, autorreferencial. Vai tomando consciência do processo, ainda que relutante até o último suspiro, ao longo do próprio processo. Não entende, por exemplo, como pode ser considerado machista no Séc. XXI quando era considerado pró-feminismo no Séc. XX. Não dá o braço a torcer. Sai aos brados defendendo uma maior reflexão por parte dessa geração enquanto não para de emitir opiniões sobre tudo, frases de efeito, algumas carregadas de poesia, outras simplesmente vazias. Permanece nesse conflito talvez até o ponto final.

O que você acha, aliás, das redes sociais?

Como tudo na vida​, tem seus prós e seus contras. Eu, autor, tento ver o lado bom da coisa na medida do possível (até pra não surtar). Se não fosse meu orientador, a bem da verdade, eu teria escrito uma verdadeira ode desenfreada à rede durante o mestrado. Mestrado que foi fundamental na revisão do livro sob esse aspecto, o Eugênio Bucci soube refrear meus impulsos mais entusiastas e me mostrar o outro lado da força. Pra ficar num exemplo prático: como dá pra dizer que o Brasil é um país com inclusão digital enquanto essa inclusão ainda se dava com internet discada em Macapá até dia desses? Inclusão digital não é só colocar um celular nas mãos do caboco, principalmente se esse celular nem pega 3G. As redes sociais têm sua importância, claro, mas a sociedade está longe de se resumir a elas. De resto, têm seus párias (ainda que alguns embuídos de um hedonismo sado-egoístico no discurso coletivo) e seus santos (os famosos imbecis funcionais). Não resume a sociedade, mas fornece um bom retrato. E, como todo bom retrato, tem sempre algo escapando da vista.

Você já disse que é um livro sobre o fracasso. Por que o fracasso?

É​ sempre bom relembrar a vulnerabilidade ​da “condição ​ humana​” numa época de super-homens. Desde que não se tente usar isso como moeda de troca, claro. Especialidade dos publicitários. Quem denigre, pelo menos, mostra a cara, conhece-se o inimigo. Só tem gente virtuosa no meu Facebook​ (ademais, costumo dar unfollow nos reaças)​.​ ​ ​A moda agora é cair ​de pau ​ em cima dos defeitos dos outros, sempre o mesmo inferno. Sean Penn no Oscar, Beauvoir no Enem. Um racista, a outra nazista-pedófila. Bom senso nenhum. Falta bom senso até pra concordar com ​o ​ Cowboy: “garotas perdidas”. Mas não que isso seja ​característica dessa geração, nem da minha (qual é a minha?), nem da “geração perdida” d​o​ Hemingway ou dos românticos. Os fracassados sempre foram e sempre serão a força-motriz da sociedade. Os párias são necessários. ​Quer geração mais frustrada do que os hippies? Foram os maiores fracassados do Séc. XX. Os hippies envelheceram (por favor, não me venham com Fora do Eixo), a guerra continua a se renovar a cada dia, seja a nível macro ou micro (aí sim, podem vir). Mas quem pode condená-los? Quem pode condenar Margaret Sanger? Feminismo de um lado, eugenia do outro. Qual pesa mais na balança? Quem no Facebook é tão puro e inocente a ponto de poder se considerar a balança em si? Ainda pior: quem pode ter a pretensão de ser essa balança eletrônica, tão precisa, mas sem a devida humanização do processo, sem calcular o peso temporal aos poucos, harmonizar as medidas aos poucos, tirar de um lado, colocar do outro, até um justo equilíbrio? O Cowboy? Reconhecer nossas fraquezas, nossos fracassos como pessoa, como balança, é necessário. Reconhecer o espírito de cada tempo, seus párias, e como chegamos até aqui. Essa é a busca, ainda que inconsciente, do Carlo Kaddish.

O século 21 está condenado ao fracasso?

O ser humano​ está condenado ao fracasso, se já não fracassou. Esse talvez seja o Cowboy falando mais uma de suas frases de efeito. Talvez seja eu. Como já disse: tudo tem seus dois lados. O que é fracasso pra um pode não ser pra outros, começa daí. São tempos nebulosamente relativos ao tempo em que dualistas, uma era liquidamente maniqueísta. Não dá pra ser futurólogo que nem o Kurzweil e prever maravilhas quânticas pós-humanas, tampouco ser um dramaqueen existencialista que nem o Kaddish. Ainda assim: com tantos Kurzweils por aí, penso que é bom ter um Kaddish que atire a pedra na vidraça ou espezinhe a grama do vizinho. Infelizmente, pra desgosto de certos deboistas, nem se firmar nesse maniqueísmo líquido ele consegue. Novo fracasso?

Você diz que o romance é uma DR entre o autor e suas catacumbas. Quais são suas catacumbas?

Até pelo próprio distanciamento natural requerido pelo romance, trata-se sempre de uma conversa com os mortos (​com “nossos ossos”, pra ficar com o título do romance do Marcelino Freire), ainda que bem vivos. Tem de deixar que morram primeiro, ainda que a contragosto. O livro tem várias catacumbas antes abertas que precisaram ser fechadas, deixadas pra trás, ainda que a contragosto. Quem me conhece sabe da minha batalha contra a alienação parental. Eu, nesse aspecto específico do livro, sou a própria catacumba. Morri em vida. O personagem, nesse sentido, é quem acaba fazendo as vezes de autor e dialogando comigo, feito (ainda que a contragosto) personagem.

Pode contar um pouco o problema que teve com a polícia em Belém e que acabou por fazer você sair de lá?

Eu nunca tive problema com a polícia, a polícia (militar) que sempre teve problema comigo. Meu problema é com autoridade, o excesso, o abuso.​ Meu problema é com encapuzados que invadem um hospital pra executar um “bandido”. Acho que parte da corporação em Belém acabou se incomodando com isso e eu acabei virando um problema. Não só eu, diga-se. Não fui o único a ter de sair de Belém por causa dessa perseguição. O caso dos donos do 8 Bar, Karllana Cordovil e João Paupério, foi absurdo. A PM plantou drogas e dinheiro no estabelecimento, os dois foram acusados de tráfico, inocentados, saíram do país temendo represálias (Belém não é exceção, afinal). Não fomos os únicos, claro, trata-se de um grupo bem específico que bateu de frente contra os desmandos de tal parcela da corporação. Fora toda a periferia desde sempre. Enquanto isso, os verdadeiros traficantes, os do colarinho branco, continuam passeando soltos pela Mangueirosa, tocando as mesmas empresas que usavam pra lavar o dinheiro do tráfico nos anos 90, frequentando as mesmas igrejas onde rezavam nos anos 90, desfilando pelos mesmos cassinos clandestinos onde se reuniam nos anos 90, “escoltados” pelo mesmo espírito de porco de parcela da corporação policial, ainda se valendo de advogados picaretas e um judiciário corrupto pra se safarem. Meu segundo romance vai tratar de tudo isso (além dos dramas existenciais de praxe), já venho trabalhando nele faz dois anos. E eles sabem. Quem disse que estou morando em São Paulo?

Quais são as caras da literatura contemporânea brasileira, na tua opinião? E como está o Pará nesse mapa?

A literatura contemporânea brasileira é um bicho de sete mil caras e cabeças. Não que seja um fenômeno isolado, é só mais um sinal dos tempos. Isso é bom? Ruim? Todos nadadores (como bem definiu um amigo), todos na mesma travessia da Mancha (como bem definiu outro). Com o Pará não é diferente, e no próximo dia 12 de janeiro, aniversário de 400 anos da capital, vai ser lançada uma coletânea com algumas dessas mil e uma facetas locais. E quando digo que não é diferente, não é mesmo: o Pará é só mais um ponto conectado à rede, por mais isolada que esteja a estrela na bandeira nacional. Todos na mesma travessia. E que fique claro: isso nada tem a ver com a tal “inclusão digital” apregoada por aí; não estou me contradizendo, pelo contrário. Poeta hoje publica no Twitter, qualquer edge dá conta, vai no discadão mesmo. A literatura sempre acha um caminho. As ideias sempre acham um caminho. Publiquei meus três livros por editoras independentes. Me considero, portanto, mais um escritor independente do que um escritor paraense ou goiano. Um nadador independente. Mas estamos falando de um mapa cibernético, portanto: há quem pegue uma prancha e saia surfando na crista da onda. Não é contra as regras, afinal. É quase uma regra, a bem da verdade. Mas as regras, como todos sabemos… e algumas pranchas acabam sendo quebradas pelo caminho. Belém, assim como Brasília, Manaus, Natal, Rio, São Paulo, todas têm alguns tantos bons nadadores, todos com as mesmas ou similares dificuldades. Braçadas-coletâneas ajudam. Hoje, morando no eixo, a maior diferença é que posso beber com mais frequência (embora ainda raro) com quem bebia uma vez a cada ano ou dois ou dez, sempre com algum novo nadador ao lado. De resto, como todo nadador sabe (ou deveria saber): melhor se contra a corrente que é pra fortalecer os braços.

Posted in clipping, cowboy | Comments Off on cowboy no correio braziliense

cowboy na folha de sp

Captura de Tela 2015-12-19 às 20.11.54e mr. joca reiners terron mandou resenha do eu, cowboy na folha de são paulo.

até estou tentando em off, mas fato: não dá pra reclamar de hoje. óuauêaíóssô.

Posted in clipping, cowboy, papo-furado | Comments Off on cowboy na folha de sp