memórias do cárcere na ditadura temer

cacoishak-01-09-16

Sérgio Andrade e Deborah Fabri perderam um olho. Fernando Fernandes perdeu um dente. Tive a sorte de não perder mais do que minha câmera. Cobria o quarto ato “Fora Temer” em São Paulo, pelos Jornalistas Livres, desde a concentração em frente ao MASP. Força policial maciça, a postos em cada esquina das transversais de lado a lado e em frente ao museu, helicóptero no ar. Força policial não apenas desproporcional ao número de manifestantes (sou de humanas, basta dizer que estes ocupavam quase toda a extensão do quarteirão) como completamente desorganizada. Ou propositalmente. Manifestantes eram orientados a seguir por determinado caminho e se deparavam com uma barreira policial pronta pra atacar. O jornalista foi se informar. “Não recebemos ordem nenhuma”. Entrou em cena o advogado.

Com OAB recém-reativada, por há muito já temer o pior, tentava intervir sempre que a chapa esquentava, questionando majores, tenentes, soldados, os próprios manifestantes (em sua maioria jovens e adolescentes). Assim acompanhei o ato até a 9 de Julho: ora imprensa, ora direitos humanos. Encontrava-me entre o batalhão e o povo no momento em que um dos manifestantes soltou um rojão pro alto e de imediato a PM respondeu como de hábito descomedida com balas de borracha e bombas de gás.

O que se seguiu daí em diante, há de ficar guardado na memória. Após a esperada dispersão, com o celular descarregado e perto de casa, resolvi fazer um pit stop pra recarregar a(s) bateria(s) e dar notícias à base (modo avião desde o Aeroporto Internacional de Brasília, onde cobria a consumação do golpe, incomunicável desde horas antes). Não durou cinco minutos. O tempo de olhar pela janela e dar de cara com cerca de cinquenta homens da Tropa de Choque atravessando a Roosevelt.

cacoishak2-01-09-16

Continue reading

Posted in all real, articulices caquéticas, blissett, Uncategorized | Comments Off on memórias do cárcere na ditadura temer

meu filholini

13923863_10210404567975704_9067214283201504390_o

chegou o dia. muito me deu prazer ter escrito o prefácio desse somos mais limpos pela manhã, não só por ser meu primeiro como sobretudo por ser o primeiro do jorge filholini.

segue um trecho:

A consciência já tão bem formada de um autor estreante quanto à transitoriedade das vidas mimetizadas na obra, portanto, da obra em si. “Narra direito ou abandono o texto”, diz o personagem de Mataram o narrador, cutucando os frangos de caçarola da literatura nacional: “escrever à mão ninguém mais quer. Dói o punho. Tadinhos”. Logo, do próprio autor.

Quem seria o Senhor H? Quem seria esse poeta “sempre solicitado nos saraus pra recitar aquele verso do Paulo Paes ou do Bandeira” e que hoje já não consegue lembrar a senha da própria conta bancária? Seria o H de Herói da literatura nacional? Ou heróis nada salvam senão os próprios umbigos? O país se salva. E… lá vem o Brasil descendo a ladeira.

E com o Brasil, todos os heróis de verdade, os heróis da rua, os mesmos retratados pelo Jorge Filholini na literatura ou na fotografia ou numa conversa-fiada de bar. As chagas de um herói comum, ainda que já não sambe feito o pai, enlatado num sonho classe-média com garagem, previsível e cotidiano, My way na vitrola. “A casa sempre sabe o próximo passo de seu dono”. As chagas de Antônio Carlos cortando “sua pizza como um príncipe”, um covarde. Ainda assim: his way.

que livro foda esse sacana escreveu. alegria mesmo (não invoco a palavra em vão) de fazer parte assim tão intimamente desse momento.

hoje portanto até compartilho a guarda com quem quer quer apareça (e espero que apareçam muitos, todos) mas: o filholini é meu.

Posted in orelhas & pré-foices, participações | Comments Off on meu filholini

macacada fashion

IMG_20160730_0001-page-001aí saio revirando as caixas em Belém e me deparo com isso.

Macacada Fashion: zine editado por mim (e Orlando Arouck, quem idealizou a bagaça, até a terceira ou quarta edição), com ilustrações de Márcio Guerra. doze edições no total, se bem me lembro. terminou seus dias como tão somente: Macacada.

me perdoem pelas crases e vírgulas e “editoração” e referências (minhoca do Labirinto?!) e tudo mais. eu era só um moleque de dezoito anos a contragosto numa faculdade de direito dando meus primeiros passos autodidatas no jornalismo.

os grifos são do pai. palavras fora do contexto, incabíveis, segundo ele. um amigo me acusava na época de ser verborrágico, pedante. a tirar pelo “Guimarães Ishak” e pela moral da história (em contraste com os erros supracitados), talvez ele tivesse razão.

Posted in articulices caquéticas, bagagem, prosa curta, rockstar de quarto | Comments Off on macacada fashion

ficcionais vol.2

CAPA_Ficcionais_vol2-1alegria de participar dessa FICCIONAIS VOL.2 organizada por Schneider Carpeggiani com meu ensaio até onde a obra pode levar o escritor. hoje, a partir das 19h30, na livraria blooks (shopping frei caneca), tem o lançamento + mesa com Julián Fuks, Micheliny Verunschk e Sidney Rocha, mediados pelo próprio Schneider. todos bem vindos.

Posted in articulices caquéticas, dois conto, participações | Comments Off on ficcionais vol.2

golpe: antologia-manifesto

G0LPE_Rodrigo_Sommer

tristeza e honra de participar desse GOLPE: Antologia-Manifesto. espero que surta algum efeito. espero estar redondamente enganado. parabéns aos organizadores Ana Rüsche, Carla Kinzo, Lilian Aquino e Stefanni Marion pela iniciativa, e a todos que contribuíram com esse AP-1.

DOWNLOAD GRATUITO DE GRAÇA NA FAIXA GRÁTIS BAIXA BESTA

atento y fuerte. foco e risco. porro y suerte.

Continue reading

Posted in all real, articulices caquéticas, blissett, coletâneas & agremiações, dois conto, inéditos, participações | Comments Off on golpe: antologia-manifesto

#leiaobrasil

13415421_1184202685002072_4909405076915849097_oustra entre os mais vendidos? nostalgia? ignorância? burrice?

difícil se manter calado numa época em que todos têm opiniões muito bem formadas desde o pós-berço, eu sei. mas pluralidade de opiniões, sempre bom lembrar, não deve ser confundida com desrespeito aos direitos humanos. e essa biografia por si só se traduz na mais perfeita encarnação do próprio desrespeito.

pra quem gosta de nostalgia, portanto: brasil nunca mais. tudo quanto foi modalidade de tortura narrada pelos próprios torturados, de idosos a grávidas e crianças. um agravante: foi organizado por dom evaristo arns, então tem deus pra tudo quanto é lado. um tapão bem sonoro na cara de todos os papa-hóstias e cu-quentes que se sentem no espírito de vestir a carapuça de torturador.

pra quem gosta de ignorância: como nascem os monstros. do que adianta falar da tortura na ditadura militar sem falar da tortura diária e dos desmandos de sempre praticados pela polícia militar na periferia? não, não acabou. tem que acabar.

pra quem gosta de burrice: golpe de estado. da feita que nunca de fato acabou o militar, quase um tutorial pra esquerda se tocar do quanto foi burra e cúmplice do golpe arquitetado pela direita em pleno século XXI. lançado em meados de 2015.

parabéns, Suplemento Pernambuco, por não se/nos calar.

participem da campanha ‪#‎leiaobrasil‬ – a democracia, a literatura e os direitos humanos agradecem.

Posted in all real, articulices caquéticas, blissett, participações | Comments Off on #leiaobrasil

fail again

capimcalor

pra quem gosta de print, recebi esse email faz sete anos. disse a três amigos cineastas na época: “vem aí nova onda reaça, bora fazer um documentário enquanto é tempo” – nunca saiu do papel (mal entrou).

todavia: eu, cowboy já estava escrito. e assim escrito:

Melhor sonhar com Atlântida do que com o Reino dos Céus ou a Presidência de uma multinacional. No mais: há mil e tantos anos, os árabes redescobriam a matemática e eram o must da evolução. Mil e tantos anos depois, derrubam aviões contra prédios comercias. Realmente. Se a gente considerar o fator estético, dá pra dizer que houve um upgrade, um Terrorismo avant-garde. Evolução e tanto. Mas fato é que a humanidade ruiu junto com aquelas torres e tá tentando desesperadamente se colocar de pé outra vez. Uma geração bibestializada entre a relativização da verdade e o comodismo da ironia, entre direita e esquerda. Olhar pra frente que é bom, só de cara pro retrovisor. E como dói se olhar no espelho… tanto mais fácil se com uma carapuça saudosista.

Continue reading

Posted in all real, articulices caquéticas, blissett, cowboy | Comments Off on fail again

o captain, my captain

“criam-se narrativas e não análises”, assim falou nosso nu-putschist cristovam buarque, parente do chico.

vou d’Otoni: “estar certo não vale a asa de um bicho”.

ou deMenezes: “você quer transformar seu ódio em política pública e eu quero que o meu ódio seja um crime proibido pela constituição federal.”

a guerrilha nos tempos do capitalismo punk de matt mason. todo um arsenal e-m’odelos 3D.

dia em que os alçapões do calabouço do nosso inferno astral se abriram, a exato meio caminho doutra primavera.

“ah mas teve direito de defesa.”

Continue reading

Posted in all real, articulices caquéticas, blissett | Comments Off on o captain, my captain

cowboy na diversos afins

O grande Sérgio Tavares sendo o grande Sérgio Tavares nesta providencial leitura do Eu, Cowboy, resenhado pra revista Diversos Afins em site repaginado.

Ishak empreende esse efeito aleatório no desenvolvimento (ou esboroamento) da narrativa, coadunando maciços de texto, diálogos longos e curtos, e-mails, palavras em caixa alta, verbetes de dicionário e trechos de música em inglês. A voz, em primeira pessoa, por vezes rompe os limites internos e se dirige diretamente ao leitor, mostra consciência de que está numa obra de ficção. Passado e presente se intercalam de maneira incessante (quando não se sobrepõem), em saltos temporais que se localizam nos anos 90 e no começo dos anos 2000.

O entender corrosivo destas duas décadas, aliás, é o ponto alto do livro. Embora não deixe de desfilar, por meio de seu protagonista, reflexões carregadas de uma filosofia torta, o autor constrói sua ambientação por meio de referências que vão da cultura pop a fatos históricos. Informações sutis, sugestões, o que hoje é conhecido, na cartilha cinematográfica, como easter egg. De nomes de bandas a títulos de canções que evocam bandas, da MTV ao 11 de setembro, do grunge à uma ressaca permanente, um ressaibo de que tudo se podia, ainda que não se quisesse nada, há iscas para interpretações por todo o romance.

(…)

Enfim, “Eu, Cowboy” é uma experiência mobilizada por sensações, vozerio e muita fúria que se assemelha a uma locomotiva em pleno movimento que, tal uma locomotiva em pleno movimento, não é fácil de embarcar.

agradeço demais o cuidado e a generosidade. continue lendo aqui.

Posted in clipping, cowboy | Comments Off on cowboy na diversos afins

subscrito

os alunos de jornalismo da UFPA estão com um projeto bem massa de divulgação da literatura paraense, o Subscrito. o pontapé inicial foi essa matéria da Juliana Maués a partir da entrevista que publico abaixo, na íntegra. parabenizo os envolvidos pela iniciativa e agradeço de público o convite.

Mas a novidade mesmo é o segundo romance que o autor está produzindo. O livro tem como pano de fundo a história do narcotráfico na Amazônia nos anos 90, de onde parte para uma série de temas como a legalização das drogas, a conexão entre o Pará e Cartel de Cali via Serra Pelada e os seus desdobramentos em Belém como os cassinos clandestinos e lavagem de dinheiro em empresas de fachada, a desmilitarização da PM, a corrupção e setores do judiciário e alienação parental. O livro promete – e essa a gente não pode perder!

subscrito1O que te levou a São Paulo? Como se deu essa trajetória? Li que fizeste (e fazes) fortes críticas à cidade. Como se dá essa tua relação com Belém?

Uma série de fatores me trouxe a São Paulo dessa última vez. Esfera pública e privada. Dá pra dizer que tudo eclodiu em junho, julho de 2013. Eclodiu, já vinha sendo encubado há tempos. Acho que prefiro falar das questões por trás desses fatores, desses agentes: abuso de poder e corrupção de parcela do funcionalismo público desde a base até o topo, uma política de marginalização das liberdades individuais levada a cabo justo por quem lucra com o proibicionismo e que permeia todas as classes sociais alimentando essa onda irrefreável de violência que, por sua vez, alimenta o abuso de poder e a corrupção. Passei a incomodar certas pessoas (passamos se levado à esfera pública) e, depois de dois anos resistindo à ideia, me convenceram a partir. Distante, mas ainda lutando.

Continue reading

Posted in clipping, papo-furado | Comments Off on subscrito